24 de junho de 2015

O SPA - autor Kiko Zampieri






     Abri a porta de madeira com entalhes de metais e lá dentro apareceu um grande quintal. Totalmente arborizado, um gramado aparado e no centro uma fonte com aquele menininho fazendo “xixi”. Fui caminhando pelas lajotas de cimento até uma grande porta de vidro, que se abriu assim que me aproximei. Era um lugar lindo, perfumado, com aquele aroma de incenso indiano, o chão mais parecia um espelho, o teto ornado com lindos lustres de cristais. Estranhei que o local estava vazio e bem calmo, mas afinal era um SPA e SPA é assim mesmo, calmo e silencioso, para as pessoas tirarem o estresse. No fundo do salão estava uma menina atrás do balcão, sorrindo e aguardando que eu me aproximasse. Eu estava meio sem jeito, afinal era a primeira vez que estava num lugar desse “naipe”. Cumprimentei-a e fui correspondido. Ela então saiu de trás do balcão e fez um sinal para que eu a acompanhasse, assim o fiz, tenso e ao mesmo tempo curioso.Ela segurou uma porta de vidro enquanto eu entrava. Era um corredor longo com portas dos dois lados, acho que havia umas doze portas. Fomos caminhando e ela ia falando sobre as atividades no SPA, massagem, banho de leite, yoga, sauna e outras recreações. Chegamos então em frente de uma porta onde estava escrito vestiário masculino.
     - Aguardarei aqui até o senhor voltar. Informou.
     Rapidamente vesti a sunga preta e me cobri com o roupão branco do SPA, o chinelo de borracha e lá fui eu. A primeira porta era uma saleta coberta por ladrilhos e pisos brancos e uma grande maca no centro, não era um lugar muito espaçoso, um abajur no canto que emanava um luz azul e o som de quedas d’água, que saíam de um aparelho de som, bem tranquilas. Ela me ajudou a tirar o roupão e o colocou sobre uma pequena cadeira ao lado, tirei o chinelo e subi na maca ficando de barriga para cima, como ela havia instruído.
     Ela puxou uma mesinha com vários frascos sobre ela, abriu um deles, despejou um pouco em uma das mãos e as esfregou uma na outra, depois calmamente foi alisando meus pés, me controlei, pois morria de cócegas nos pés, passava o polegar com firmeza na planta dos pés, depois os envolvia com a mão, um de cada vez e ia fazendo movimentos de vai e vem, ainda bem que eu estava com uma toalha sobre a sunga, senão passaria vergonha. Em seguida, colocou novamente o óleo nas mãos e foi massageando do meu tornozelo até o joelho, dessa vez ficou na lateral da maca e podia ver pela transparência do avental branco com o nome do SPA escrito em letras douradas todo o seu perfil inferior. Passou então para as coxas e quase atingindo as minhas virilhas, fechei os olhos, não ia aguentar muito tempo, com aquelas mãos macias e untadas correndo pelas minhas coxas. Aguentei.
Depois foi para o abdômen, peito, braços, ombros e finalmente a cabeça, adormeci levemente, agora sabia o porquê das mulheres e homens gastarem tanto dinheiro para ficarem dias e dias num SPA, era maravilhoso e relaxante.
     Uma meia hora depois ela pediu que eu me virasse de costas e começou tudo de novo, fiquei mais tranquilo pois o perigo estava escondido entre o meu corpo e a maca. Mais meia hora e ela pediu que me vestisse, ajudou-me a colocar o roupão e o chinelo e fomos pelo corredor até uma outra porta.
     A sala era um pouco maior que a anterior, os pisos e azulejos eram iguais, não havia música e a luz era forte. No centro uma banheira de madeira, que ela depois me informou que era um “Furô”, não entendi na primeira e nem na segunda, mas deixei para lá, o importante era entrar naquela banheira. Ela novamente me ajudou a tirar o roupão e o chinelo e entrei na banheira. Para minha surpresa estava cheia de um líquido branco, que depois ela me informou que era leite de cabra, a primeira impressão fora de nojo, depois me senti ridículo naquele lugar, afogado no leite de cabra misturado com pétalas de rosas vermelhas e algumas ervas, como ela explicou, porém fui me acostumando e relaxando, só não esperava que ela também tirasse o seu avental, deixando exposto um corpo escultural e coberto por um maiô preto com o nome do SPA em letras douradas e entrar do outro lado da banheira. Sem me questionar, foi entrando na banheira ou furô, bem devagar para não espalhar o líquido pelo chão. Então pediu que eu me virasse de costas para ela e começou a me massagear, começou pela cabeça, fazendo movimentos com seus finos dedos em meu couro cabeludo. Ela percebeu que eu já não estava mais relaxado e forçou meu corpo para que minhas costas ficassem encostadas em seus seios. Daí passou a massagear o pescoço e em seguida descendo para os ombros.
     Eu já estava a ponto de explodir sentindo aquelas mãos macias em meu corpo e os dois joelhos em cada lado do meu tórax, não sei se era impressão minha, mas algumas vezes sentia seu dedão roçar as minhas coxas.
     Subitamente me puxou ainda mais para que encostasse minhas costas e foi esparramando o leite pelo meu peito e movimentando as mãos circularmente, enquanto a minha cabeças caía sobre um dos seus ombros e sentir bem de perto aquele hálito fresco e mentolado. O que me deixava mais aflito era quando ela perguntava se eu estava relaxado, como poderia ficar relaxado com tudo aquilo junto de mim, respondia que sim por educação.
     Achei que ali iria terminar, estava enganado, completamente enganado. Ela saiu primeiro, se enxugou e depois pegou outra toalha e me ajudou a descer da banheira e me secou, me secou por completo. Pegou a minha mão e me puxou para o corredor. Agora deveria ser um banho de piscina ou uma suada na sauna.
    Quando a porta se abriu, quase tive um “treco”, era um quarto iluminado pelo vermelho das lâmpadas do teto, o carpete também vermelho, uma cama redonda na frente, um baita espelho no teto e um globo girando e espalhando pequenos fachos de luzes coloridas pelo teto e pelas paredes. Entrei e no meu íntimo agora seria a hora do real desfrute do SPA, ia tirar o roupão, mas ela impediu. Pediu que me sentasse na cama, obedeci sem pensar. Ela foi até o outro canto e tirou seu avental, começou então a dançar, agarrada a uma barra de metal do teto até o chão, parecia uma cobra enroscada num galho de árvore, eu não estava aguentando. Então ela levou as duas mão para as suas costas e começou a abrir o fecho do sutiã, foi trazendo os braços para frente e...
     - Waldemar! Acorda! Precisa fazer a ronda!
     Na mesa uma revista magazine com destaque uma propaganda de um SPA. “Venha se deleitar e relaxar no SPA Paraíso.”



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19 de junho de 2015

A MENINA DA RUA DE TERRA



Lá vem ela pela rua, faceira e feliz, sempre sorrindo, mesmo nos dias de chuva torrencial. Ela me vê entre as grades do portão de ferro e acena, gentilmente, e continua seu caminho. Dali dá pra vê-la abrir o pequeno portão e sumir da minha vista.
Assim são todos os dias, há quase vinte anos, sempre olhando pelas frestas do meu portão. Com a vontade de gritar para ela o quanto a amo, toda vez que ela passa pela frente da minha casa.
Eu a amo, antes e depois de todos os acontecimentos, na profunda imensidade do vazio e a cada lágrima dos meus pensamentos. Em todos os ventos que cantam, em todas as sombras que choram, na extensão infinita dos tempos até a região onde os silêncios moram.
Eu a amo em todas as transformações da vida, em todos os caminhos do medo, na angústia da vontade perdida e na dor que se veste sem segredo. Em tudo que está presente, no olhar dos meus olhos que não te alcançam e em tudo, mesmo que estejas ausente.
Eu a amo desde o primeiro choro, desde os seus primeiros passos e antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Se fechar meus olhos ainda posso vê-la correndo pela rua de terra, mais parecendo um menino serelepe, subindo nas árvores, jogando bola com os meninos, empinando pipa, jogando bolinha de gude. Os pezinhos vermelhos do barro molhado, os cabelos desarrumados, o shortinho vermelho e a camiseta branca e o mesmo sorriso em seus lábios.
Eu a amo perdidamente, desde que o Universo fora criado e mesmo depois que o mundo real desabou sobre a minha vida e paralisou meu corpo e me colocou nessa cadeira de rodas.

Amanhã será um novo dia e vou atravessar o meu quintal, deslizando as rodas emborrachadas pelo cimento rústico até as barras de ferro do portão e esperar que a minha menina da rua de terra, passe e me acene, finalizando o meu dia e me incentivando para estar ali no dia seguinte.

17 de junho de 2015

O AMIGO IMAGINÁRIO (Conto) - autor Kiko Zampieri



Sabe aqueles dias em que nada dá certo. Que você se sente o último dos homens no mundo. Um mundo sem ninguém. Aquele sentimento amargo na boca. A sensação de ter tomado um soco na boca do estômago. A perda de sensibilidade nas pontas dos dedos. A fraqueza nos membros inferiores. Ou como se estivesse caindo num buraco bem, mas bem profundo. Assim estava eu nesse dia ensolarado, sentado na beira de um penhasco, próximo do bairro onde morava, em Atibaia. Olhar morto no horizonte baixo. Vento remexendo meus ralos cabelos e suspiros, choro da alma, como dizem os velhos poetas, profundos. Pensei em descomungar sobre essa vida lerda, mas me contive, afinal a vida era minha, então eu era o lerdo e não a vida. Quase que dei uma melhorada com esse pensamento estapafúrdio, porém voltei ao pessimismo pegajoso, que me acompanhava desde que cheguei naquele lugar.
A região era muito linda e bem aproveitada por praticantes de paraquedismo, asa delta e tantos outros, que nem me lembro os nomes, e desde a minha infância que me sento nesse mesmo lugar, só que das outras vezes, era para me divertir com as cores misturadas no azul do céu. Hoje não. Hoje nem o azul do céu rompe o cinzento dos meus pensamentos e para os meus olhos, que tantas cores viram, agora estão daltônicos.
Na solidão a melhor coisa é criar um amigo imaginário, de preferência inteligente, vivido, sagaz e principalmente amigo. Fiz isso, mesmo com meus cinquenta anos, voltei no tempo e comecei a conversar com esse cara, que realmente, não me lembrava dele, porém parecia que éramos bem íntimos.
- E aí, meu amigo! Disse ele como se aguardasse uma avalanche de reclamações.
- Preciso desabafar! Respondi, já embaraçado com a própria situação que eu mesmo havia criado.
- Pelo que pude observar, posso fazer uma analogia da sua vida com o “Status quo.”
Pronto lá vinha ele com suas locuções latinas, tiradas da internet.
- Está sim, senão qual seria o motivo para chamá-lo?
- Calma, my friend! Só estou querendo quebrar o gelo.
Essa era outra coisa que odiava, expressões inglesas, para tentar enaltecer a sua frase medíocre.
- Ok! Nossa até eu já estou sendo impregnado. Mudei. – Está bem! Quero te contar o que está acontecendo e preciso muito da sua ajuda.
- Sou todo ouvido! Riu.
- Sabe a Olivia, minha esposa? Me deixou.
- Já era de se esperar. Só você não percebia.
- Como assim? Questionei transtornado com a frieza dele.
- Simples. Mulher gosta de ser tratada como uma joia rara, que deve ser apreciada, elogiada e guardada a sete chaves. E o que você fez? Nada.
- Como nada! Dei tudo a essa mulher, casa, carro, academia, roupas, joias, o que mais podia dar?
- Amor, atenção, surpresas poéticas, despertar seus desejos e muito sexo.
- Fiz tudo isso também.
- Quando? Nas Bodas de Papel? Infeliz! Isso é coisa para toda a vida.
- Me mostre um casamento que é assim.
- Nenhum! Por isso há um aumento de divórcios e separações. Casamento já nasce morto.
Não estava acreditando que tivera todo trabalho de trazer esse cara para conversar comigo, parecia pior do que eu nas questões sentimentais. Porém era o que tinha naquele momento.
- Perdi meu emprego também. Foram vinte anos dedicação e agora me chutaram.
- Bem feito!
- Bem feito! Cara, eu te trouxe para me ajudar e não ficar me massacrando.
- My friend! Se você queria confessar seus pecados, deveria ter ido a uma igreja. Eu gosto de questionar, discutir relação, ponderar e ajudar o meu amigo a encontrar as respostas.
- Tá certo!
- Continuando, um cara que fica vinte anos num emprego é como um parafuso velho deixado no fundo de uma prateleira de um almoxarifado. Quando o acham já está enferrujado e jogam fora. Você deveria ter se diversificado, atualizado, estudado e ambicioso.
Poxa! Não é que ele tem razão. É isso mesmo, vou ligar para Olivia e pedir para que ela volte para casa e vou procurar um novo desafio profissional. Procurei pelo meu celular, mas não o encontrei, tentei me levantar para poder procurar um telefone público, mas não conseguia me mover.
- Que pensas estar fazendo? Disse o amigo imaginário
- Preciso ligar para Olivia.
- Que eu saiba, aqui no segundo vale do Sétimo Círculo não há sinal e como você é uma árvore, jamais irá sair daqui. Disse ele se levantando.
Abismado, assustado e ainda mais desorientado, pude ouvir um grito ao longe:
- Vamos Dante, há muito que caminhar por esse Inferno.

8 de junho de 2015

A ÚLTIMA DANÇA (Desafio Espinho D'água "Ditados Populares")




O dia chegara. 21 de abril. Reinauguração do salão de baile do Clube Alvorada. A cidade estava em pleno alvoroço, afinal meio século se passara desde o último baile. Para ilustrar a reinauguração nada melhor que um baile da terceira idade e trazer de volta os jovens foliões daquela época. E claro, lá estava eu eufórico e já treinando alguns passinhos, mesmo com as dores no ciático e nos joelhos, não importava, eu queria ter a oportunidade de poder dançar, nem que fosse pela última vez.
Eu estava como aquele salão de baile, fechado por meio século, desde aquele último baile nunca mais dancei, era como se meu corpo não quisesse mais bailar por outros salões, a memória atrapalhada pela idade não conseguia encontrar o verdadeiro motivo daquele fechamento. Do meu corpo. O salão foi por motivo financeiro, era muito custoso mantê-lo aberto para tão poucos bailarinos. O que mantinha o clube, ainda na ativa, era o time de futebol da segunda divisão.
A janela do meu quarto mostrava a velha praça, agora movimentada pelos veículos que chegavam para o grande baile. A maioria dos meus amigos havia mudado para outras cidades depois da formatura, exatamente depois do último baile de formatura naquele salão. Algumas imagens daquele dia passam pela minha mente, a insistência de minha mãe em colocar-me uma gravata borboleta, a escadaria da entrada do salão abarrotada de pessoas bem vestidas, as meninas com seus vestidos de saia rodada, acho que era assim que chamavam. Os garotos com seus ternos, sapatos engraxados, Gumex nos cabelos e o aroma do inconfundível Lancaster. Eu, Tonico Garça e o Quincas Bola, éramos inseparáveis, desde o Grupo Escolar, em tudo o que fazíamos, futebol, nadar na lagoa, caçar passarinhos, pescar e tudo mais, naquele dia não seria diferente, tanto que combinamos de se encontrar na praça e seguirmos os três juntos até o salão. Enfeitada com bandeirolas coloridas, o cheiro da pipoca estourando no carrinho do Seo João, as luzes acesas em volta da calçada, as buzinas dos carros que aguardavam para estacionar, o sargento Gomes orientando a travessia das senhoras com seus filhos mais novos e a entrada do velho salão iluminado e com o letreiro avisando sobre o Grande Baile dos formandos daquele ano.
Da praça até a porta de entrada trazia uma emoção que chegava a apertar a boca do meu estômago, o primeiro baile, do qual eu era um dos protagonistas, meu baile, minha formatura, mesmo não sendo um bom aluno, eu chegara até ali, naquele momento me senti um homem que deixava a infância para trás, mas sem se preocupar com o futuro, eu queria mesmo era entrar naquele salão e me sentir o mais importante. A porta principal estava aberta e a Dona Francisquinha organizava as turmas no hall por classe, era uma luta descomunal para controlar a ansiedade e o deslumbre daqueles alunos. Nossa classe era composta de oito meninos e dez meninas, nenhuma interessante na época, eu gostava mesmo era da Anita Fragoso, lourinha de olhos verdes, seios grandes e uma boca que fazia inveja, mas parecia que não se interessava por nenhum de nós, daquela cidade, como ela dizia, queria conhecer o mundo e casar com um homem bem rico.
Depois da cerimônia e entrega dos canudos vazios, a orquestra começou a tocar e quem começou mesmo o baile foram os adultos, animados e despreocupados lotavam o grande salão iluminado e de chão de tacos encerados. Os mais velhos estavam sentados em volta de grandes mesas, enfeitadas e cobertas com toalhas brancas e vermelhas. Os meninos e meninas estavam em volta e em lados diferentes, trocavam olhares, cochichavam e alguns casamentos começaram naquela noite. Minha turma não era muito de dançar, gostávamos de ficar perturbando os mais jovens e fracos da escola, porém naquela noite eles me abandonaram pela primeira vez. Tonico Garça se engraçou com a Vitinha, menina que gostava de ler e pintar, cabelos sempre com tranças e vestidos coloridos com flores ou animais. Quincas Bola foi puxado da minha companhia pela Estelinha, que há muito tempo vinha tentando namorá-lo. Naquela noite conheci a solidão, coisa que depois carreguei pela minha vida inteira. Não me casei e nem tive filhos e perdi o contato com os meus dois melhores amigos, talvez hoje eu os reencontre.
Apaguei a luz do quarto e saí pelo velho corredor, uma angústia tomou conta do meu coração ao olhar o papel de parede amarelado pelo tempo do corredor mal iluminado. Quantas vezes eu atravessei aquele corredor, sempre silencioso, sem nunca dar muita atenção ao papel de parede ou mesmo o chão assoalhado, são coisas que não notamos em nossa íntima euforia, talvez, pela pressa de nossa juventude, deixamos de notar coisas importantes ou mesmo fazer coisas importantes, que não eram tão importantes naquele momento, coisas juvenis, eu acho. Continuei pelo velho corredor, desci as escadas de mármore desgastado até chegar na porta da rua. Também parei por alguns segundos diante da velha porta de madeira com aquela janelinha de vidro trabalhado e a maçaneta redonda de bronze, abri e fiquei no alpendre. A rua continuava movimentada por rostos conhecidos e desconhecidos, ali parado no primeiro degrau da escada e segurando no corrimão fino de ferro, voltei ao tempo. Tonica Garça e Quincas Bola do outro lado da rua, arrumando as gravatas e cintos, ajeitando os cabelos engordurados pelo Gumex e abotoando os paletós. Deixei escapar um leve sorriso e pude ouvir a minha mãe dando as últimas instruções para que não fizesse traquinagens na festa de formatura, como das outras vezes, eu prometi, mas não cumpri. Desci os três degraus com dificuldade, sempre apoiado no velho corrimão, que tantas vezes saltei por cima para agilizar o caminho, na calçada levantei o tronco para dar um ar de um velho mais conservado e altivo, ajeitei o paletó, respirei fundo e caminhei em direção ao velho salão.
As lembranças fazem com que notemos as pequenas coisas, que tantas vezes passamos, o vizinho na janela, a calçada quebrada, uma pintura nova na fachada, um rosto novo que mal cumprimentamos, o som de um pássaro cantando na praça, o velho cachorro caminhando entre as pernas dos pedestres ou mesmo uma moça nova com um short mais ousado. Assim foi meu trajeto até a porta de entrada do velho reinaugurado salão do Clube Alvorada. Cada degrau eu voltava ao tempo, cada cumprimento eu podia ouvir as vozes dos velhos e desaparecidos amigos da turma, ao entrar pelo hall refeito eu pude sentir nos braços o sangue se agitar devido as batidas mais fortes do coração, era como se voltasse ao tempo e até olhei ao meu lado para tentar enxergar Tonico Garça e Quincas Bola, ri de mim mesmo. Desci as escadas forradas de um carpete vermelho com barras douradas prendendo em cada degrau. O salão parecia maior, mais iluminado e o chão mais lustroso, as mesas postadas em volta, formavam um grande círculo, deixando um vazio no centro para os pés de valsa deslizarem ao som da música. No fundo o palco, bem mais iluminado, estava repleto de músicos, uns dez acho, com seus instrumentos sendo afinados e um crooner bem alinhado, parecendo Frank Sinatra, com um smoking branco sobre uma calça preta e a gravata borboleta também preta, testava o microfone. A maioria das mesas da frente estavam ocupadas, todos queriam ver de perto a orquestra, o crooner e talvez cantarem juntos algumas músicas antigas. As laterais do salão eram abertas para circular o ar pelo salão e proporcionar aos fumantes uma escapada ou outra para a varanda que circulava o prédio. Fui me sentar bem próximo a uma das laterais numa mesa para quatro pessoas, logo que me acomodei um garçom trouxe uma taça de vinho branco, cortesia da casa, recusei pois não gosto de vinho branco e pedi um Gin tônica. Depois veio uma garçonete e colocou um pratinho com alguns salgadinhos, diferentes, bom, gostoso, e em pouco tempo ele estava vazio.
Dali, bebericando o Gin tônica, podia ver a porta de entrada e talvez com sorte, rever alguns amigos, mas durante uma hora, nada. Resolvi fumar um cigarro e esticar as pernas, que já teimavam em adormecer pela má circulação. Recostei-me na mureta de cimento coberta por cerâmica vermelha e acendi o cigarro, proibido pelo médico e deixei a mente valsar com o som da música que vinha do salão, Boemia, cantada pelo saudoso Nelson Gonçalves. Minha vida podia ser tratada como uma boemia, solitária, cheia de altos e baixos, mulheres temporárias, muita bebida e poucas horas de sono. Simples e pouco produtiva, apenas divertida. Hoje estou aposentado, solteiro, encostado nessa mureta gelada, ouvindo Nelson Gonçalves e esperando o fim chegar. Nossa que trágico, coisa de velho na descida da estrada da vida. Volto então para o salão, as luzes, casais bailando e me deparo com uma linda senhora vestida de azul turquesa e uma linda flor nos cabelos grisalhos. Noto que ela está me encarando, talvez nos conhecemos e o tempo nos deixou marcas que nos tornaram irreconhecíveis, não tenho nada a perder naquela noite solitária e vou em direção dela. 
- Muito prazer, sou...
- Vitinho! — Respondeu ela em cima, sem pestanejar.
- Nos conhecemos? — Forcei a mente e não veio nada, nenhuma lembrança, nada. 
Ela então se recostou na mureta ficando bem próxima de mim, seu perfume era excitante e inebriante, como a música do Nelson, seus olhos oblíquos como o de Capitu de Machado de Assis, seu rosto, mesmo marcado pelo tempo, era lindo e bem desenhado. Nada. Nenhuma lembrança. Meu Deus! Como é triste ficar velho. 
- Você não vai se lembrar de mim. Sou a Ritinha Alves. Disse ela me olhando com uma certa ternura que me incomodou. 
Forcei a mente novamente e nada, mas aí veio uma imagem, uma menina que se sentava no fundo da classe e de poucas palavras, cabelos negros e duas tranças amarradas com fitas amarelas. 
- Ritinha Alves! A menina tímida e calada da classe.
- Isso mesmo! Você não mudou quase nada, apenas envelheceu. Continua bonito e vistoso. Completou tocando minha mão com a palma da sua.
- Desculpe não tê-la reconhecido, mas nós pouco se falávamos.
- Eu sei! Não precisa se desculpar, afinal são cinquenta anos e nossas mentes nos enganam sempre. Riu. 
Um lindo sorriso surgiu entre seus lábios marcados pela idade, mas um sorriso lindo e bem singelo. Como deixei de notar uma mulher tão linda e como deveria ser mais linda ainda quando jovem.
Ela segurou com mais firmeza a minha mão e pediu para que dançássemos a música que começara a tocar. A noite do meu bem, de Dolores Duran. Fomos caminhando lado a lado até a pista e nos misturamos aos casais. Coloquei minha mão esquerda na altura da sua cintura e com a direita segurei a sua mão no alto do seu ombro. Ela cantava enquanto dançava, leve como uma pluma, envolvente e perfumada. “Hoje eu quero a rosa mais linda que houver e a primeira estrela que vier, para enfeitar a noite do meu bem...” A impressão que eu tinha era que ela cantava para mim: “Ai! Como esse bem demorou a chegar/Eu já nem sei se terei no olhar/Toda pureza que quero lhe dar...” E foi se aproximando de maneira a tocar seus lábios em meu rosto enquanto aninhava seu corpo ao meu. Um arrepio correu meu corpo, como nunca havia corrido, as luzes brilhavam mais intensamente, o coração envelhecido parecia o de um menino que acabava de correr por entre os matos, árvores e quintais. O perfume dela foi me envolvendo e o salão parecia acompanhar nossas voltas ao som daquele samba-canção. No final da música voltamos para a varanda, ofereci meu lenço de linho branco para que ele secasse a testa e as têmporas, ela sorriu e agradeceu.
- Quanto tempo nós perdemos! Disse a ela com arrependimento, onde a deixei escapar naquele tempo, como podia não se lembrar daquela menina.
- Numa promessa que deixamos de cumprir. Disse me olhando com ternura.
Foi então nesse exato momento, que viajei no tempo e acordei naquele dia da formatura. A menina sentada com uma rosa vermelha nas mãos, com os olhos fixados em mim, esperando que a tirasse para dançar essa mesma música, nesse mesmo salão.
- Você tinha prometido que dançaria comigo essa música na nossa formatura, mas fiquei ali sentada te esperando o baile todo e fiz uma promessa a minha irmã que dançaria com você nem que fosse a última coisa que faria nessa vida.
- Perdoe-me Ritinha! Agora me lembro, eu ia voltar e dançar com você, mas o Quincas Bola começou a brigar com o Chico Preto e quando fui apartar levei um soco no nariz e tive que ir para a farmácia do Seo Juvenal e de lá fui pra casa com meus pais. Expliquei como se estivesse acontecendo naquele instante.
- Não faz mal! Qualquer que tenha sido a razão eu consegui cumprir minha promessa. Afinal de contas, o prometido é devido.
- Me dê o seu endereço ou telefone, eu queria te ver novamente, conversar sobre nossas vidas ou outras banalidades. 
Ela tirou um pequeno pedaço de papel da bolsa prateada e me entregou. 
- Se quiser pode me visitar amanhã de manhã. Disse ela meigamente me entregando o papel dobrado.
- Não quer que eu a leve até em casa?
- Não precisa, minha irmã está me esperando lá fora. Respondeu e me beijando os lábios rapidamente.
 Na manhã seguinte eu me levantei e fiz tudo aquilo que não fazia com frequencia, barbear-me, colocar a melhor roupa e me perfumar. Desci as escadas como um jovem intrépido, quase que ia fazendo uma asneira e saltar o corrimão, mas fui impedido pelo vizinho, que me cumprimentou perguntando se estava tudo bem, maravilhosamente, respondi prontamente. Pela calçada fui sendo cumprimentado como nunca fora, talvez a minha alegria estivesse contagiando a todos, com muitos sorrisos e acenos fui seguindo até o endereço anotado.
Para minha maior surpresa era o cemitério. Que brincadeira mais imbecil! Fiquei irado, talvez ela estivesse me pregando uma peça pelo furo que dei naquele baile há cinquenta anos. Continuei a caminhar agora em direção ao local do velório, talvez ela estivesse acompanhando alguma amiga ou parente e quisesse que estivesse presente. Não, não era. Era o seu próprio velório. Minhas pernas se enfraqueceram e procurei uma cadeira para me sentar, devia estar branco como uma folha de papel. Uma senhora veio até mim para saber se estava bem, se apresentou como a irmã da falecida e me perguntou se eu era um amigo, só consegui responder. 
- Sou a promessa!

13 de abril de 2015

CALANDO A CONSCIÊNCIA DE UM POVO



Hoje vivemos um dilema pelas ruas do país, uns pedem “Impeachment”, outros as cabeças de governantes e alguns a Intervenção Militar. Como editor, escritor e cronista eu deveria me posicionar de alguma maneira, mas nesse caso todos estão certos. Ou querem estar certos, mas não podem.
Em 1964, os militares tomaram o poder e essa tomada foi, como diria o folclórico presidente do Corinthians, Vicente Mateus, uma faca de dois “legumes”, impediu, num primeiro momento, que o país fosse envolvido pela utopia do Comunismo, processo esse vendido as pessoas de baixíssima renda e trabalhadora, utilizando um lema da Aliança Nacional Libertadora, “Pão, terra e liberdade” ou então mascarada na Igualdade, Liberdade e Fraternidade, usada por intelectuais e burgueses franceses. Num outro momento, porém, extrapolaram no sorver do néctar do PODER e causaram mortes e castigos desnecessários em pessoas iludidas por frases de impacto de pseudos-terroristas, que se intitulavam “lutadores pela liberdade”, assim como Fidel Castro, Che Guevara, Hugo Chaves, Mussolini, Hitler, Stalin, Lenin, em algum momento de suas vidas, mas que depois foram transformadas em terror.
Assim, estamos passando pela mesma estação, em um trem que tem as mesmas composições, cores e apitos musicais.
Fomos manipulados a ir para as ruas por causa de uma Elba e levamos até nossas crianças com os rostos pintados, e conosco estavam jovens como Lindberg Farias, trabalhadores como Lula, ex-combatentes como Dilma, José Dirceu, José Genoíno e o povo sofrido e marcado como gado. E agora? Somos taxados de elite branca, e o pior estamos combatendo os mesmos manipuladores da liberdade e democracia daquela época. E quantas Elbas seriam compradas agora?
Por isso, acredito que deve haver Impeachment, as cabeças políticas devem ser cortadas nas guilhotinas das urnas e se não adiantar e não formos ouvidos, sermos novamente empossados pelos militares. Diferente apenas no quesito Comunismo, hoje é Consumismo. Um consumismo exacerbado a ponto de se tornar criminoso e desdenhoso.
As ruas não serão suficientes e não podemos deixar que nossa CONSCIÊNCIA seja calada por ruídos estranhos vindos de lugares que tanto idolatramos no PASSADO e nos faça ficar no MARASMO, travestido de Futebol, Novelas, BBB, Carnaval e muitos e muitos feriados e suas emendas.


“Mesmo que calem a minha boca, jamais calarão a mina consciência”
Kiko Zampieri.

7 de abril de 2015

O BRASIL NAS ENTRELINHAS



Texto de Kiko Zampieri

Não poderia existir frase melhor para diagnosticar nós, os brasileiros, do que essa frase de Renato Russo, na música “Índios”. E que deveria ser decorada, ensinada nas escolas, cantada como Hino ou ser tema de chamada dos três “B”.
Afinal, a nossa desgraça começou quando aquele simples brasileiro recebeu um espelho de presente em troca da sua liberdade, dignidade e sobrevivência. E desde então continuamos a trocá-las por meros espelhos, hoje disfarçados em monitores, espelhos d’águas, letras manipuladas e, principalmente, pelo cinismo político e democrático.
Quem teria coragem de ensinar uma criança ou um jovem estudante, que fomos enganados por desterrados lusitanos no exato momento em que chegaram em nossa terra.
Trocando espelhos e miçangas por ouro, pau-brasil e terras, muitas terras e vagarosamente sendo escravizados ou assassinados ou até pior, aprendendo uma nova religião, para que ficassem amenos e, pasmem, mais civilizados.
Quem teria coragem de ensinar que Padre Antonio Vieira, com sua oratória e retóricas, mobilizassem o povo contra uma cultura melhor e mais promissora. Os holandeses.
Quem teria coragem de ensinar que Tiradentes foi iludido com promessas de comando do novo exército de Minas Gerais e para isso teria que assumir que era o mentor da busca da liberdade. Liberdade ainda que tardia, é o lema usado para louvar um bando de senhores feudais mineiros, que junto a elite literária encabeçada por Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manuel da Nóbrega, que se tornaram famosos em suas prisões e exílios, e o grande Visconde de Barbacena, que, pasmem novamente, queria ser o Rei do Brasil, todos manipularam um pobre alferes (tenente) do exército com promessas infundáveis, mas ao mesmo tempo principescas, que acabou como realmente deveria acabar. Um pobre coitado na forca. Qualquer semelhança com fatos e pessoas, atualmente, NÃO é mera coincidência.
Pior que tudo isso era ensinar a esses estudantes que nossa libertação foi feita por um homem defecando e gritando na beira do Rio Ipiranga, patético, mas verdadeiro.

A partir daí, deixo que seu Cognitivo o leve para onde você MEREÇA.

1 de abril de 2015

LIVROS QUE DERAM BONS FILMES 3

Mais um vídeo da série sobre Livros que deram bons filmes e livros que dariam bons filmes.

Confiram:



13 de março de 2015

Livros que viraram filmes 2

Mais um vídeo da série sobre livros que deram bons filmes e livros que daria bons filmes. Dessa vez vamos atender a uma indicação de um dos nosso leitores. Acompanhe:

11 de março de 2015

DESAFIO ESPINHO D'ÁGUA DE CONTOS: NÚMEROS INFLACIONÁRIOS




NÚMEROS INFLACIONÁRIOS


06hs. 00min.
Eram seis da manhã e fazia umas trinta e cinco horas que ele estava sem dormir; nem mesmo um cochilo havia tirado. Ainda estava excitado com a ação do dia anterior. Estava entocado, escondido num barraco cujo chão era de barro e o barulho de ratos andando para lá e para cá não o deixava raciocinar direito. E o Tucão havia sido muito claro quando se despediu dele, com a promessa de voltar depois: “não é para pôr o bico para fora, entendeu?”. Sim, ele entendera e sabia que devia obedecer ao Tucão, afinal, fora dele o plano e a execução de toda a ação. Se bem que, também fora dele a ideia de chamar o Baby, que acabou por estragar quase todo o esquema.
A única coisa que podia fazer naquele muquifo era ver tv. E logo de manhã cedo já havia os programas policiais, que voltariam ao meio-dia, e depois no começo da noite e novamente no início da madrugada. Na tv e no rádio era só aquilo, desgraça e futebol no mínimo quatro vezes por dia na programação. E davam audiência, mesmo que as notícias fossem as mesmas.
E lá estava as imagens do circuito interno do banco e de uma loja do lado de fora, na rua onde eles haviam parado, no meio da madrugada. A imagem ficava repetindo inúmeras vezes, e toda vez ele se lembrava da cara abobalhada do Baby dizendo, em resposta às suas perguntas ao vê-lo encher os caixas eletrônicos de dinamite, que sabia exatamente o que estava fazendo. Não, o puto não sabia o que estava fazendo. Aliás, se soubesse, não guardaria a dinamite, que roubara de uma pedreira, bem embaixo da cama onde ele próprio dormia.
A quantidade fora exagerada. Ao invés de explodir apenas os caixas, a dinamite explodiu a agência toda. Parecia mais um atentado terrorista às três da manhã do que mais um assalto a caixas eletrônicos. Junto com os caixas, móveis, vidros e tudo mais que foi destruído e queimado, parte do dinheiro se inutilizou também. A expectativa do Tucão era amealhar uns oitenta a cem mil; porém o máximo que conseguiram foi uns cinquenta mil. Tucão ficou irritado, achou a quantia pouca. Estavam em quatro, não daria nem treze mil para cada um; para ele era uma mixaria.
Beto era o piloto de fuga, mas não sabia dirigir direito, estava no lance mais por ser cunhado do Tucão — e a irmã do Tucão vivia pedindo para ele ajudar seu marido —, do que por sua habilidade no volante, e também porque às três da manhã não havia nenhum carro nas ruas, e por mais inapto que fosse o piloto, daria conta de tirá-los dali sem muitas dificuldades.
Em menos de cinco minutos eles chegaram, explodiram a porra toda, tiraram o que deu para tirar de dinheiro que não tinha queimado e saíram de lá.
Tucão o deixou naquele barraco e disse para ele esperar e que voltaria depois para me busca-lo. Não conheço esse lugar. Ele disse para não usar celular nem sair na rua. Disse que levantaria suspeitas. Ele era paranoico, mas talvez tivesse razão. As horas seguintes de uma ação como essa são cruciais; a polícia fica no encalço como cães perdigueiros; fazendo rondas, atrás de qualquer tipo que lhes pareça suspeito.
Todo cuidado era pouco.


06hs. e 15min.
Bateram na porta do barraco, ele arregalou os olhos. Não sabia o que fazer. Ninguém falou nada. Ele ficou quieto, esperando. Bateram de novo, com mais força. Ele achou que poderia ser Tucão. Abriu a porta do barraco e viu um sujeito de cara cinzenta abriu um sorriso cínico.
— Como vai companheiro — disse o rapaz magricela.
Antes que o habitante temporário do barraco pudesse dizer alguma coisa, o rapaz que batera na porta forçou a entrada, e atrás dele surgiram outros dois rapazes com caras de poucos amigos. Dava claramente para ver que, por baixo das camisas, eles traziam armas.
— Quem são vocês? — perguntou o ocupante do barraco, que não escondia o nervosismo.
— Eu sou o Birão.
O nome do intruso não produziu nenhum efeito no interlocutor.
— O que você quer?
— Quero o dinheiro que você e o Tucão roubaram dos caixas eletrônicos.
— Não sei do que você tá falando.
— Não se faça de idiota. Dois dias atrás o Tucão me procurou para fazer essa fita, mas eu disse não por causa do Baby. Eu sabia que com aquele idiota na jogada, ia acabar dando alguma merda. E agora não para de repetir na tv a explosão da agência bancária. E eu vi quando o Tucão te deixou aqui.
— Não tenho nada aqui, nem aparelho celular.
— Eu não quero saber. Se vira. O Tucão falou para mim que esperava conseguir uns cem mil; e isso significa que no mínimo devem ter conseguido uns cento e cinquenta.
— Não deu tudo isso. Parte se queimou com explosão.
— Eu não acredito. E mesmo se acreditasse é isso que quero. Daqui duas horas volto aqui e é bom estar tudo arranjado. E esses dois aqui vão vigiar o barraco para você não fugir. O dinheiro vai ter que vir até mim. Entendeu?
O rapaz que ouvia tudo ia dizer algo em resposta, mas Birão não quis ouvir, deu as costas e foi embora, junto com os outros dois.


06hs. 45min.
Birão estava no carro quando o celular tocou.
— E aê vagabundo.
Birão reconheceu aquela voz escrota. Era o sargento Vilar.
— Logo cedo sargento.
— Pois é cedo que a vagabundagem tá se adiantando agora, não é?
— Do que o senhor tá falando?
— Da porra do caixa eletrônico que explodiu na madrugada.
— Não fui eu, senhor.
— Eu não disse que foi você.
— E então?
— Não foi você que fez a fita, mas é você que vai ficar com o dinheiro.
— Como o senhor ficou sabendo.
— Se eu disser, aí o malandro seria você e eu seria o vagabundo.
— Ainda não estou com o dinheiro.
— Mas vai estar. Quanto é montante?
— Cem mil.
— Mentira. Deve ser, no mínimo, cento e cinquenta.
— Talvez não tenha nada, eles explodiram a porra toda.
— Problema de quem explodiu e seu que foi lá atrás do dinheiro. Agora sua questão é comigo.
— De quanto o senhor tá falando?
— De tudo?
— Tudo.
— Sim; e como o mínimo não me interessa, quero o máximo, e creio que seja uns duzentos mil.
— Senhor, não cabe essa quantia toda nos caixas.
— Você mesmo não disse que explodiram o banco todo? Então, na certa estouraram também o cofre e tudo mais. Devem ter raspado tudo.
— Eu não acho que...
— O que você acha não me interessa. Duzentos mil até o meio-dia, senão a casa cai para o seu lado.
Birão ia tentar argumentar, mas o sargento Vilar desligou o telefone.


07hs. 30min.
O sargento Vilar estava sentado na sala do delegado Salgado. Quinze minutos antes o sargento havia recebido uma chamada via rádio para comparecer na delegacia, à pedido do delegado. Ele não fazia ideia do que poderia se tratar.
Logo o delegado Salgado entrou e cumprimentou o sargento Vilar.
— Como vai sargento?
— Tudo bem senhor. O que manda?
O delegado soltou um sorriso de canto de boca; não disse nada. Abriu a gaveta da sua mesa e tirou um gravador de dentro dela. Em seguida apertou a tecla do play. O sargento Vilar se assustou ao ouvir sua voz gravada. O conteúdo da gravação era a conversa de minutos antes que o sargento tivera com Birão.
— O senhor grampeou minha linha? — perguntou Vilar, surpreso.
— Sim, assim como você grampeou a linha desse tal Birão.
Sargento Vilar ficou em silêncio por alguns segundos, em seguida perguntou:
— Então qual é o negócio senhor?
— Se ouvi direito, o valor citado por você foi de duzentos.
— Na verdade, eu disse esse valor mais para pressionar o vagabundo do que para...
— Pois o negócio são esses duzentos e mais cinquenta, por tentar passar a perna em mim na minha área.
— Como é?
— Não entendeu? Eu faço a contra para você; duzentos mais cinquenta dá duzentos e cinquenta.
— Duzentos e cinquenta mil? Impossível.
— Impossível é você querer ser algo além do bosta que você é. Quer passar por cima de mim, na minha área; quer me desmoralizar?
— Não, não senhor, mas é que... eles não roubaram essa quantia toda.
— Sabe que dia é hoje?
— Hoje é dia cinco.
— Exatamente, dia de pagamento. Eu tenho informação de que naquela agência havia no mínimo uns quatrocentos mil. Se esses imbecis tiveram um trabalho todo daqueles para não levarem tudo, o problema agora é seu.
— Não vou ter como dispor dessa quantia senhor.
— Então amanhã o senhor não poderá dispor de oxigênio para respirar, entende?
— Mas, senhor?
— Acha que a questão aqui é o dinheiro, sargento. Não, não é. A questão é hierárquica; o senhor de crescer onde não devia; e deve pagar o preço por isso. Hoje o valor é esse, 250 mil, e ainda é uma pechincha. Não queria dar uma de malandro? Agora aguenta a rebordosa.
— Mas senhor, o senhor devia considerar que...
— Eu não devo nada, quem deve aqui é você. Agora dê o fora daqui e volte às quatorze horas, com o dinheiro no porta-malas do seu carro.
O sargento Vilar ainda tentou argumentar, mas o delegado Salgado não quis ouvir mais nenhuma palavra e o pôs para fora de sua sala.


12hs. 25min.
Rufino’s Restaurante. Centro da cidade.
Na mesa estavam o delegado Salgado, Tucão e Oswaldino, gerente do banco BSH (Business Safe House), alvo da explosão aos caixas eletrônicos realizado na madrugada por Tucão e seus comparsas.
— Eu disse que daria tudo certo — disse o delegado Salgado enquanto sorvia um bom gole de uísque dezoito anos, de uma garrafa aberta especialmente para a ocasião.
— Devo admitir que você tinha razão — disse Oswaldinho que também bebia grandes goles do mesmo uísque.
Tucão não disse nada, apenas se limitou a dar um gole grande na caneca do chope que pedira. Ele foi o único que recusou o uísque.
— Essa era a melhor oportunidade de matarmos vários coelhos com uma cajadada só — emendou o delegado Salgado.
— O senhor pensou em tudo mesmo — soltou Tucão, e nada mais disse.
Realmente o plano era perfeito.
Meia-noite o carro forte trouxe os malotes e abasteceu os doze caixas eletrônicos que realizavam saque. Era dia de pagamento e aquela agência era uma das mais procuradas da cidade, pois firmara um contrato com várias empresas que depositavam os salários dos seus funcionários nela. Cada caixa foi abastecido com 40 mil. Sem contar os mais de cem mil dos dez guichês de atendimento para os que fossem sacar dinheiro na boca do caixa. O gerente do banco, Oswaldino, recebeu os homens da transportadora de valores e esperou que terminassem de abastecer os caixas. O procedimento era muito rápido, não podia ser demorado por questões de segurança. Em menos de quarenta minutos estava tudo acabado e o carro forte tinha ido embora.
À uma e meia da manhã, o gerente, com a ajuda do Tucão, esvaziou quase todos os caixas, deixando apenas dois ou três com algumas quantias, que somadas chegavam a uns setenta mil. Também limparam os guichês. Duas e quinze da manhã os dois saíram com meio milhão de reais do banco no porta-malas do carro do Tucão.
Às três da manhã o Tucão voltou ao banco, dessa vez acompanhado de Baby, o cara dos explosivos, e Davi, que depois seria deixado no barraco para ser buscado depois. E de Beto, o piloto de fuga que ficou esperando no carro, com o motor ligado.
Baby não pretendia usar tanta dinamite quanto usou, mas Tucão insistiu na grande quantidade, pois ele sabia que era preciso destruir qualquer evidência do que havia sido feito minutos antes. Quase o quarteirão todo foi pelos ares, e parte dos setenta mil se queimou, sobrando apenas os cinquenta mil auferidos.
— A essa altura, o fulaninho lá, qual é mesmo o nome dele? — perguntou o delegado Salgado para Tucão.
— Quem? O que ficou no barraco?
— Sim, esse mesmo.
— Davi.
— Sim Davi, nosso boi de piranha; ele já deve ter sido eliminado por Birão, que por sua vez foi eliminado pelo sargento Vilar, pois duvido que tivesse os 200 mil exigidos pelo sargento. Já esse sargentinho de merda que queria cantar de galo na minha área, cuidei para que seja morto numa troca de tiros com meus homens, os quais vou dar uns bons cinco mil para cada um, num flagrante de extorsão e assassinato do vagabundo alcunhado de Birão. Tudo se fecha, sem pontas soltas.
“Ainda restou uma ponta solta” pensou o Tucão, mas não disse nada. A ponta solta era o garçom do restaurante, que aceitou três mil reais para servir ao delegado Salgado e ao gerente de banco Oswaldino, não o uísque da adega do restaurante, mas o da garrafa dada pelo Tucão, que chegou meia hora antes dos outros dois no restaurante e fez a proposta ao garçom, entregando-lhe a garrafa de uísque fechada e com seu líquido devidamente envenenado. Certamente ele teria que dar conta do garçom mais tarde. Mas agora a prioridade era outra.
Ele pediu licença ao delegado e ao gerente de banco e levantou-se dizendo que iria ao banheiro. Ele tinha cerca de meia hora antes do veneno fazer efeito. Ele sairia pelos fundos do restaurante; do outro lado da rua, Beto já o esperava, com o motor do carro ligado e 500 mil reais dentro do porta-malas.

Beto não sabia dirigir direito, mas era seu cunhado, e Tucão não queria mais ouvir sua irmã pedindo a ele que ajudasse seu marido.