3 de agosto de 2008

MUNDO DE ILUSÕES (Conto)

Logo de manhã, no programa de culinária, um gourmet ensinava o preparo de um delicioso e prático crepe recheado com trufas e servido com geleia de morango e suco de laranja, adoçado com adoçante espartano, “super prático e nutritivo, para começar bem o dia com um café da manhã reforçado” repetia a apresentadora do programa, depois ela dava uma bela mordida no crepe, olhava para câmera, fechava os olhos e gemia: humm! Me dava água na boca, mas eu tinha que me contentar com um pão com manteiga e meio copo de café misturado com leite em pó que vinha na cesta básica que eu recebia da metalúrgica onde eu trabalhava; eu trocava de canal e lá estava a “bomba” do dia escrito no gerador de caracteres, no rodapé do vídeo a frase: “exclusivo: saiba tudo sobre o casamento do ano” e a voz irritante da repórter dando todos os detalhes do casamento de um artista famoso: os convidados chegando nos seus carros importados, a igreja enfeitada com rosas vermelhas e uma orquestra mandando ver na cantata 147 de Bach, seguido de Ave Maria, interpretado pelo cantor Agnaldo Rayol – sempre ele –, vestido todo de branco. A noiva, linda, vestia um vestido da grife de Gianni Versace, usando sobre a cabeça uma diadema ornada por minúsculas miçangas e enormes pedras preciosas, comentava-se que o anel de noivado custara trinta e cinco mil reais e a festa do casamento outros trezentos e sessenta mil; o noivo, famoso ator da novela das oito, sorria e abraçava os convidados e a noiva modelo – sempre modelo ou empresária, ou até mesmo modelo filha de um grande empresário –, sempre tomando o cuidado de se manter na pose ideal para as dezenas de fotógrafos e cinegrafistas de todas as emissoras de televisão e alguns sites de fofoca da internet. A repórter de voz irritante especulava que, provavelmente, os noivos passarão a lua de mel na Austrália, antes porém, eles darão uma rápida passada em Paris, para manter o itinerário tradicional de qualquer casal em bodas, e também na Nova Zelândia, para dar um toque exótico e moderno ao acontecimento do ano, mas logo os recém-casados teriam que voltar para o Brasil, já que o famoso ator já estava escalado para a nova novela das sete.
Ao meio-dia começava a enxurrada de coloridos e esdrúxulos programas esportivos recheados por merchandaising de pilha, aparelhos de barbear, cervejas, a porra da câmera filmadora e até pneus. Num desses programas o apresentador chamou a reportagem de menos de um minuto – tempo reservado a todos os esportes que não fossem futebol – sobre a volta ao mundo dos veleiros, quando a reportagem acabou o apresentador fez o trocadilho: “já que nós vimos o timão do veleiro, vamos aproveitar e falar do timão, o corinthians”, nessa hora meu nariz escorreu e eu podia jurar que era meu cérebro querendo fugir da minha cabeça para não continuar assistindo aquilo. A programação seguia, e eu seguia trocando de canal, procurando salvação.
Um belo carro, Mazda, preto, reluzente, importado, com gps e ar refrigerado, por apenas e tão somente setenta mil reais; num filme norte-americano, o ator saía com um carro como esse para fazer compras no supermercado e no seriado que passava na hora do almoço a atriz chegava na academia onde fazia exercícios para manter a boa forma do seu corpo de mulher balzaquiana num Porsche, modelo conversível. Comédias enlatadas americanas, piadas americanas, risos americanos, Will Smith americano; eu não via graça nenhuma. À tarde, tome novela: novela mexicana nova, novela brasileira em reprise, novela mexicana em reprise e filmes já reprisados mais de uma centena de vezes:

1. Os Aventureiros do Bairro Proibido
2. O Rapto do Menino Dourado
3. Comando Para Matar
4. Os Gunes
5. Curtindo a Vida a Doidado

À tarde também passavam na TV os programas destinados à moderna mulher brasileira. Eram programas que atendiam a todas as necessidades da vida pós-industrial das mulheres; eles ensinavam as mulheres a: fazer risoto de frango, costurar emendas em calças rasgadas; combinar cores de echarpes e saias santropê; como se exercitar usando utensílios domésticos como o cabo da vassoura e a tábua de passar roupa; como fazer sabão e porta-retratos com palitos de sorvete em casa; como dobrar as peças de roupas, inclusive meias e cuecas, para caberem melhor no guarda-roupas; como aprender a nova dança que vai abalar o carnaval em salvador; a ficar por dentro da nova técnica de cirurgia plástica para arrebitar a ponta do nariz sem a necessidade de anestesia e do tratamento de pele com a lama do vulcão do oriente ou o tratamento com o cogumelo do sol. Isso sem falar nas fofocas dos artistas, nos resumos das novelas, nos desfiles de sapatos, de cães vestindo coletes de crochê, de biquínis e de mulheres nuas com os corpos pintados sob o pretexto de servirem como modelo para a “pintura artística”, e sem falar também nas seríssimas discussões acaloradas entre muitos convidados famosos – ex-participantes de realityshows, modelos e atrizes que saíam nuas em revistas masculinas e cantores que um dia já fizeram sucesso – sobre temas polêmicos como a mudança de sexo dos transexuais, o beijo do casal gay na novela, o sexo nos bailes funk, o relacionamento de mulheres mais velhas com garotões, a pensão alimentícia não paga pelo jogador de futebol da seleção ou pelo decadente pagodeiro aos seus filhos bastardos, o uso indiscriminado do botox, as novas próteses de silicone recém lançadas no mercado da beleza estética e as vantagens e desvantagens de uma lipoaspiração ou de uma lipoescultura.
E não parava por aí, à noite voltavam as novelas mexicanas inéditas, as novelas brasileiras em reprise, as novelas mexicanas em reprise e as novelas brasileiras inéditas – se é que se pode usar a palavra “inédita” para designar as novelas em exibição pela primeira vez –. Entre uma novela e outra vinham os jornais, de emissoras diferentes mas todos dando as mesmas notícias, da mesma forma, às vezes, com as mesmas palavras, e com as mesmas imagens. Depois, mais filmes e seriados enlatados americanos, e para fechar as minhas quinze horas de programação televisiva com chave de bosta, assisto ao apresentador e entrevistador, e sempre sorridente, mostrar toda a coleção de obras de arte na casa de seu amicíssimo político, dando origem e preço das porcelanas, quadros, vasos, esculturas e tapetes vindos dos países da Europa e que ornamentavam as paredes, cômodas e o chão de sua mansão; poucos dias depois esse mesmo político estaria sendo preso pela polícia federal por várias acusações, entre elas o repasse de dinheiro para um operador financeiro comprar aquelas mesmas obras de arte.
Eu podia jurar de pés juntos que, se eu tivesse uma arma ao lado da cama, daria um tiro na televisão e outro na minha têmpora. Estava tudo ali. O que eu mais queria e o que mais eu odiava.

10 de julho de 2008

O ser humano é uma criatura muito frágil
Capaz de ser letal
O amor é um sentimento muito frágil
Capaz de mover céus e terras
Leva-se uma vida inteira para se formar uma personalidade
Que pode ser deformada tão facilmente
O jeito parece ser sempre incerto
Aberto e desprendido para qualquer coisa
Sobretudo para coisa nenhuma

22 de junho de 2008

No fundo do poço
no meio do breu
você encontra o seu eu
e vê o seu rosto
no fundo do poço
você cura o desgosto
sente o gosto da dor
avalia tudo que sobrou
e percebe que ainda há amor
no fundo do poço
atolado até o pescoço

2 de junho de 2008

notei algo que acho interessante, e que pode não ser, pois pode não ser nada, apenas uma falsa impressão minha, mas notei que:
O ser humano, logo que se depara com algo, ou alguém, muito parecido com consigo prórprio, tende a adorar esse algo ou alguém, chegando até mesmo à idolatria. Mas, depois de certo tempo, ele não consegue sossegar enquanto não destrói essa mesma coisa ou pessoa, a tal ponto de só se sentir bem após ter acabdo por completo com a imagem desse algo, ou alguém, e com o que ele respresenta.
Será que essa é só uma impressão minha?

24 de maio de 2008

Mais um feriado prolongado
é bom, e também ruim
Se tudo já está programado
ou se não é bem assim
Dias de se fazer muita coisa
ou coisa alguma
cada coisa, uma por uma
ou uma por uma, coisa nenhuma
Alguns aproveitarão o quanto puderem
outros não poderão fazer muita coisa
Muitos ficarão o tempo todo à toa
e alguns farão tudo que quiserem

Dias assim sempre deixam alguma coisa pra trás
desde lembranças até um gosto meio amargo
A gente vai lamentar que poderia ter feito mais
e esperar ansiosamente pelo próximo feriado prolongado

11 de maio de 2008

Se você não ama, nem quer amar ninguém
Nem está apaixonado, ou quer estar apaixonado por ninguém
É melhor tomar algumas precauções para não correr o risco de se apaixonar acidentalmente por alguém:
Ande de olhos e ouvidos fechados
Não fale com ninguém nem deixe que falem com você
Não aspire nenhum tipo de perfume
Não ouça músicas nem assista filmes românticos
Não leia poemas de amor
Não se sensibilize com nada
Trate de ser menos humano
Não veja beleza em nada
Nem seja gentil ou educado
Não veja beleza nas coisas nem nas pessoas
Faça tudo mecanicamente
Durma sem sono e acorde cansado
Coma sem se preocupar com o sabor dos alimentos
Procure ser unicamente racional
Seja pessimista
Haja como se você fosse a única criatura a habitar a face da terra
Viva por viver
Aceite a morte como algo certo e não tão distante
Odeie dias ensolarados
Odeie dia dos namorados
Odeie feriados
Esmague as rosas
Olhe para tudo mas não veja nada
Não bata palmas, assobie ou cantarole uma canção qualquer
Não retribua um sorriso nem diga “não há de quê” quando alguém lhe disser “muito obrigado”
Não tenha animais de estimação
Não estime ninguém, nem a si mesmo
Não vá ao cinema
Não olhe nos olhos
Não ande de mãos dadas com ninguém
Não tenha amigos
Não tenha ideais
Não sonhe
Não diga a ninguém o que você realmente sente
Não seja sincero
Não acredite em nada nem tenha esperança
Não goste de crianças
Não confie nos outros
Nunca elogie nem trate ninguém bem
Jamais queira segurar no colo um neném
Jamais queira coisa alguma
Não admire as diferenças
Não respeite as outras crenças
Não ouça seu coração
Não tenha compaixão
Seja você todo um grande nada
Seguindo essas regras simples e práticas você pode ficar despreocupado, pois nunca vai amar nem ser amado por ninguém.

2 de maio de 2008

Feriado nacional
Primeiro de maio
Dia do trabalho
Ninguém faz nada

Acordei mais tarde
Com a ressaca da noite anterior
Me diverti um pouco
Hoje não fiz nada

Amanhã emendo
Ainda não sei o que fazer
Talvez saia por aí
Ou talvez não faça nada

Fim-de-semana prolongado
Cansaço e tédio também
Dias de descanso
Dias de não se fazer nada

Segunda volto ao batente
À rotina do dia-a-dia
Farei muitas coisas
Não querendo fazer nada

19 de abril de 2008

PACIÊNCIA E VERGONHA NA CARA

Paciência e vergonha na cara, são as frases que eu ando repetindo com mais frequência para mim mesmo. Às vezes a gente erra por ignorância, despreparo ou imperícia; são erros até certo ponto toleráveis. Mas quando você comete um erro tendo a exata consciência desse erro, e das suas consequências, a coisa é diferente, não tem perdão; deve haver uma paga, um preço a se pagar por isso. E a conta sempre chega, pode até demorar - e quando demora é pior, porque aí vem com juros e correção -, mas é líquido e certo que o mal que a gente faz para nós mesmos e para os outros retorna de forma redobrada para nós. Agora eu acredito nesse efeito bomerangue, porque eu sofri na minha própria carne os efeitos do mal que eu fiz. O mal não é errar; errar a gente erra o tempo todo, o problema é a gente não se arrepender e insistir em cometer, conscientemente, os mesmos erros, não só por birra, mas também por isso nos trazer algum tipo de prazer ou vantagem, ainda que momentâneas.

PACIÊNCIA E VERGONHA NA CARA, MEU CARO!!!!

VERGONHA NA CARA!!!

PACIÊNCIA RAPAZ, TUDO TEM SUA HORA!!!

Agora eu aprendi essa lição.

30 de março de 2008

UM DIA PERFEITO

Aquela pessoa por quem te apaixonaste perdidamente
Nada sentia por ti, nem mesmo indiferença
E a tua crença te guarda em silêncio
Mas por quê finges não ver que este é um dia perfeito?
Hoje tudo é como deveria ser
Até mesmo aquilo que tu achas ser uma derrota
Tua dor é humana, e é bela
Teu sofrimento é algo do que deves te orgulhar
Porque isto te faz singular

Tua vida é um fracasso
Mas hoje é um dia perfeito
E não adianta negar que não percebes essa beleza

Olha o firmamento
Admira esse sol
Curta essa madrugada
Sinta esse frio
Sinta prazer em sentir esse nada

Regozije-se em estar só
Tu nasceste só
E és o que és, uma criatura solitária
E não reclames daquilo que é uma bênção

Hoje é um dia perfeito
Estás sem ninguém
Ninguém te ama
Ninguém te quer
Ninguém se importa contigo
E esse dia lindo deve ser apreciado
Pois nesse dia perfeito
Tua tristeza não tem importância

24 de março de 2008

AS ESTAÇÕES

Existem as estações.
As estações externas e as estações internas.
A Primavera, o Verão, o Outono e o Inverno.
Cada um de nós tem dentro de si suas própias estações.
Agorinha mesmo estou saíndo de um inverno; um verno tenebroso, escuro, frio, solitário, que me fez muito mal espiritual, sentimental e fisicamente. Estive mal, foi inverno cruel, brabo mesmo. Acho que, se eu der sorte, agora vou conseguir um pouco de Outono. Não me iludo com a sonhada Primavera, tampouco com o Verão, que, sendo sincero, é a estação da qual menos gosto.
Lá fora, agora, também se iniciou o Outono.
E eu, aqui dentro, sinto cansaço, angústia e muito sono.
Mas acho que esses são sintomas da ressaca desse Inverno pelo qual passei
Só sei que, pelo que passei, não espero passar tão cedo
Que passe definitivamente essa estação
E que se regenere esse meu partido coração

21 de março de 2008

SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO

Hoje é sexta-feira da Paixão, mas não existe mais sexta-feira da Paixão. Tudo parece não existir mais como antigamente; um antigamente cada vez mais distante, em preto e branco, com uma música triste e bucólica de fundo. Hoje tudo parece ser uma coisa só, uma coisa sem gosto, sem cheiro, sem cor, sem forma, sem graça nem sentido.

2 de março de 2008

Nós sabemos quem somos
Eles são desconhecidos
Nós somos os mesmos
Eles nunca são iguais
Nós queremos
Eles têm
Nós dividimos
Eles subtraem
Nós conquistamos
Eles se apossam
Eles roubam
Eles tomam
Nós reclamamos

Nós não sabemos, só achamos que sabemos
Eles não são desconhecidos, nós os conhecemos muito bem
Nós somos sempre os mesmos, não evoluímos
Eles nunca são iguais, estão cada vez piores
Nós queremos, mas não fazemos nada para ter
Eles têm e jamais dividirão conosco
Nós nos dividimos
Eles subitamente traem
Nós conquistamos fracassos
Ele se apossam de nossas idéias
Eles roubam nossas riquezas
Eles tomam o que querem
Nós reclamamos, só reclamamos

10 de fevereiro de 2008

SINTO MUITO

Sinto muito ter desapontado você
Sinto muito. Sinto muito ter apontado você na rua
Eu sinto muito que a culpa seja toda sua

Sinto muito ter desamado você
Sinto muito. Sinto muito ter amado você nua
Eu sinto muito que ninguém tenha culpa

Sinto muito por você e por mim
Sinto muito por tudo ter chegado ao fim

Sinto muito pelo tempo perdido
Sinto muito por ter perdido a calma
Sinto muito por ter feito você chorar
Sinto muito por não ter feito nada

Sinto muito por não sentir mais nada

4 de fevereiro de 2008

METRÓPOLE

Cada animal com seu instinto
e cada verme com seu partido;
Das desgraças, das quais consinto,
a ignorância é a que mais tem me doído

Dos retângulos verticais
que paralelos e estáticos eternizam
a grandeza esmeralda dos capitais,
vejo o cinza vulgar dos que se imitam;

Cada zumbi vestindo sua pedante ilusão,
respirando todo o fedor sanitário,
comendo a mais podre reserva de grãos
e arrotando um forçado sorriso amarelado;

A cada animal cabe um destino
e nenhum verme, do asco, se isenta.
Com o perigo a desgraça tira um fino
e escapa da vida fingindo pena

mas alimentando a miséria alheia
como se o imundo mundo fosse justo;
Sua falsa fachada não se permeia,
só a dor se penetra a todo custo

derme adentro
até o centro
até a razão sucumbir;
E, quem sabe assim, a vida se acostume
à inconstância do que há por vir
pois a vida não tem sumo, só tem gume.

2 de fevereiro de 2008

É carnaval, o samba, o som. A mulata
É a bebida, o enredo, a subida, a descida da serra
A praia, o interior, o feriado
A conta vem depois. Tudo vem depois
Os mortos nas estradas, os assaltos, a porraloquice.
É carnaval
É a carne, a festa. É a aporrinhação
A porra dessa animação.
É tudo meio-mais-ou-menos. É o tamborim
É o fim do começo; é o preço que se paga por não se valer nada
É o carnaval
Enjoy
Faça como eu, hiberne.

27 de janeiro de 2008

DESSA VEZ

Dessa vez eu vou. Dessa vez eu acho melhor ficar
Dessa vez eu juro que não fico quieto. Dessa vez é melhor deixar rolar
Dessa vez vai ser diferente. Dessa vez é melhor deixar as coisas com estão
Dessa vez eu vou ser duro. Dessa vez eu vou tomar uma decisão
Dessa vez eu fazer tudo de outro jeito. Dessa vez eu prometo não estragar nada
Dessa vez eu vou deixar o bom senso de lado. Dessa vez eu fazer a coisa mais acertada
Dessa vez eu prometo não me esquecer. Dessa vez pode confiar em mim
Dessa vez eu vou dizer tudo que sinto. Dessa vez não vou negar fogo
Dessa vez não vou me fazer de indiferente. Dessa vez vou fazer tudo de novo
Dessa vez vai. Dessa vez não vá fazer besteiras
Dessa vez, só dessa vez, fique. Dessa vez não diga asneiras
Dessa vez diga a verdade. Dessa vez eu vou até o fim
Dessa vez é sem volta. Dessa vez vão se orgulhar de mim
Dessa vez é cada um por si. Dessa vez vou ser obrigado a insistir
Dessa vez não vou desistir tão facilmente. Dessa vez, a gente não pode ir
Dessa vez eu vou ficar na minha. Dessa vez quem vai é você
Dessa vez eu vou pagar na mesma moeda. Dessa vez é matar ou morrer
Dessa vez não tem vez pra ninguém. Dessa vez tudo é com todo mundo
Dessa vez eu sou mais eu. Dessa vez vou ser primeiro e não o segundo
Dessa vez eu enfrentarei os meus medos. Dessa vez eu não sei mais o que faço
Dessa fez eu vou dizer o que está entalada na garganta. Dessa vez eu sei que não escapo

19 de janeiro de 2008

Poema no Poste 3

Mais alguns poemas que colei nos postes da cidade


Tudo está guardado na memória
Todas as histórias da sua história
Todas as histórias da sua vida
Todas as vidas vividas agora

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Hoje será passado amanhã
Somos hoje o que amanhã teremos
Hoje vivemos o hoje. Hoje erramos

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Nós que aqui lutamos
E perdemos
Ainda queremos
Viver o que sonhamos

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Girassol ao meio-dia
A pino, amar-elo
Despetala a afazia

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Torquato, você me chama
E eu quero ler seu poema
Você não reclama
Pois vê que meu coração se contenta

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Um só, ilha
Dois, istmo
Três, família
Quatro, pares
Cinco, aí já é quadrilha

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A luz do novo dia
Me entristece
Prefiro a outra luz que erradia
Quando escurece
A luz vermelha da sangria
Que ao meu paladar apetece

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Corre vagabundo
Corre solto pelo mundo
Sabe que não pode parar
Pois a inércia de um segundo
Para a vala pode te levar

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Sou de carne e osso
Revolta e desgosto
Fruto de um tempo
De injustiça e sofrimento

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A felicidade saiu pra comprar cigarro
E nunca mais voltou
E só hoje, de depois de muito tempo,
É que eu lembro de nunca ter sabido
Que a felicidade fumava

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Passo sobre a ponte e tremo
Pego o elevador e tremo
Penso na linda mulher e tremo
É sempre assim quando
Eu não tomo o meu remédio

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Tenho tudo quanto é possível ter
Para poder dizer que não tenho nada
Tenho à mão todas as palavras
do dicionário
Para descrever o quanto o silêncio
é sagrado
Tenho esperança suficiente para jogar
Mas não tenho a sorte suficiente
para ganhar

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Sou levado pela inconstância da vida,
Pelas intermitências da minha fé
Pela ignorância do que não se explica
Pelo medo de quem não sabe o que quer

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Ela olhava para os próprios olhos
refletidos no espelho e os via vermelhos
de tanto chorar
pelo amor não vivido,
pelo coração partido;
Por tudo aquilo que a fez sofrer
por tanto amar;

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Eu sou eu mesmo
Eu sou minha mãe e meu pai
Eu sou os dois: a goiabada e o queijo
E o beijo de “boa noite” e “durma em paz”

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Eu sozinho desde menino
Encerrado dentro de mim mesmo
Lutando contra o destino
De ir seguindo de qualquer jeito
Sem saber pra onde
Sem saber aonde
Me encontrar

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Sou um cão vira-lata
Sem latas para virar
Então me viro pelo avesso
Procurando algum jeito
De, a mim mesmo, desvirar

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Os jornais noticiam fatos de
um outro mundo
Os livros estão escritos em outro idioma
A luz não ilumina mais esse
abismo profundo
A flâmula que se ostenta é a da vergonha

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Tudo parece menos feio visto de longe
Toda canção soa distante aos ouvidos
Não é mais sabido onde a paz se esconde
Já são todos apenas rostos desconhecidos

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Esquecidos, abandonados e indesejados
Um continente de miseráveis e heróis
Um contingente de guerreiros subjugados
Uma nação dividida, uma ferida que dói

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Mas eis que se aproxima o tempo
da mudança
Quando todos conhecerão, ainda que
pela dor,
O poder, ou a conseqüência,
da destemperança
De quem nunca reagiu, de quem sempre
se calou

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Quando esse novo tempo chegar,
talvez será
Tarde demais para muitos dos que
hoje exploram,
Julgam e condenam, porém, a sua
hora chegará
E quando, de joelhos, pedirem clemência,
não a terão

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Não se trata apenas de vingança,
não é esse o caso
A questão é outra, bem mais poderosa
e legítima.
Pelo que se tem lutado, o que tanto tem
sido rogado
Não é a esmola, a migalha, o resto,
mas sim a justiça.

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Passou por um
Passou por dois, por três
E a torcida vibrou
Com o gol que ele não fez

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Trabalhar todo dia
Toda hora
Assim é a vida
De quem não tem
Vida própria

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Vou-me embora
Pra dentro de mim
Entrar para fora
Começar pelo fim

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Today é o dia do meu happy end
Se é que você me understand
É hoje que o my love dirá yes
Ao meu pedido de wedding
I will be de joelho a seus pés
Tomado pela emoção do happening

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Trabalho como um burro
E vivo engolindo sapos
Mas um dia eu juro
Que ainda vou cantar de galo

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Ei amizade, levanta a cabeça e se sacode
Cabisbaixo assim você só vai
É ficar triste e bater em algum poste

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Qualquer hora é hora
Qualquer lugar é lugar
Então que seja agora
A hora da gente se amar

14 de janeiro de 2008

Poema no poste 2

Deixo aqui alguns dos poemas que andei colando nos postes, aos poucos em coloco todos aqui:


No poste o poema
E na testa o dilema:
Poesia é ou não
Solução para o problema?

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O sol tá quente?
Então esfrie a cabeça
Feche os olhos e pense
Em sombra e água fresca

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Tá com frio?
Então se aqueça
Pense no amor febril
Que dá um arrepio
Dos pés à cabeça

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Não olhe pra trás
Siga sempre em frente
Lembrar do passado
É esquecer o presente

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Amor pode durar pouco
Mas se ele for bem louco
É como se durasse uma eternidade
É ou não é verdade?

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Cada um na sua
E você na minha
E por essa estreita rua
De mãos dadas a gente caminha

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O buraco é mais embaixo
Eu sei
E é lá que eu me encaixo
No meio

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Ei você, pare pra pensar
Mas não pense em parar
Pois pensar em alguma coisa
Já é chegar em algum lugar

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No sonho, o pombo esmigalhava o pão
No despertar, o pão era eu
E o pombo era o mundo!

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Custou muito caro não ser ninguém
Pois o ninguém achava que era alguém
E outro ninguém acabou pagando o pato
Porque o pé-de-pato é gente também

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Quando, pela primeira vez,
Eu vi a foto de Che Guevara
Eu me perguntei:
“Pra onde será que ele olhava?”

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Se abre um vão
entre meus pensamentos
E é nesse lapso ininteligível
Que se encontra o prazer espasmódico
da perda dos sentidos

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Não consigo esquecer
Nem perdoar
Quem me fez sofrer
Quem quis me magoar
Sou sofredor
E por convicção digo não
Aos que dizem sim
Sou assim por opção
E optei pelo meu fim

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Ouvi uma salva de tiros,
É carnaval antecipado;
Também ouvi uma nuvem de gritos,
E a cada ano dura mais o dia de finados.

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Que horas vãs!!
E pior é ver que as horas
Transformaram-se em dias
E os dias transformaram-se em anos
E os anos foram em vão
E a vida vã foi só um vão no mundo

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Não sou homem nem mulher
Sou a insaciável sede de sangue
Que seca minha estreita garganta

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Não sou branco nem negro
Sou vermelho como a chama
Que flameja nos meus olhos

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Não sou ateu nem cristão
Sou o tempo cinza e melancólico
Que me castiga nos dias tediosos

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Não sou moral nem imoral
Sou ilha, atol, à toa, atordoado
Guiado por desejos irrealizados

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E que não ouse alguém duvidar
Do poder que tem quem não tem
Nada a perder
Alguém, por tudo querer, sem nada poder
Tudo pode por nada temer

Quem nada tem a perder
Tem tudo que precisa

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Quero ter a certeza do seu amor por mim
E que agora seja um fim,
para recomeçarmos sempre assim
Eu sendo seu, você sendo minha
Abraçados, sabendo que é junto
que se caminha
Pela vida afora, para sempre e por agora

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Você já tem o meu emprego,
Você já tem a minha mulher,
Você já roubou meu dinheiro;
E o que mais ainda você quer?

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Você usa o meu nome,
Você vive a minha vida,
Você sente a minha fome
E se sacia com a minha comida
O que eu fui, agora você é
E o que mais ainda você quer?

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Você mora na minha casa,
Você veste as minhas roupas,
Você cortou as minhas asas
E tem todas as minhas coisas
O que mais ainda você quer
Além de já ter o que quiser?

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Você detêm minha memória
Você é dono da minha história
Você sabe tudo que eu sei
Você teve êxito aonde eu errei
O que mais ainda você quer?
Quem realmente você é?

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Hoje esse frio é de todo mundo
Mas o calor que aquece os corações
é de ninguém
Todos temos força; nos pertence,
por um segundo,
Essa coragem de tentar fazer o bem

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Ninguém é dono do que pertence
a todos
Quando todos sabemos ser uns iguais
aos outros

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Não tenha medo do medo que você tem
Não tenha medo de mim nem de ninguém
Não tenha medo nem pena
Não tema o que lhe apequena

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Não acredito em nada
Que não seja uma mentira bem contada
Nunca duvido do que não acredito
E nenhuma verdade me convence
de verdade

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Estou cansado de tantas explicações
Não faz sentido o que tenho ouvido
Existem teorias, filosofias, religiões
Existem razões e delas eu duvido

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Nada vale a pena
Por isso mesmo
Tudo por ser tentado
E ainda que a alma seja pequena
Menor é o medo
De ter de volta o que nos foi roubado

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Ninguém pode deter
A desmedida força
De quem não tem nada a perder
E ainda que a história se repita
Só o que importa
É a coragem de quem ainda acredita

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Tudo é possível
Quando nada é provável
Tudo é incrível
Quando nada é provável

--------------------------------------------------------

O tempo e o espaço
São inverdades
Real é o sonho
O amor e a saudade

-----------------------------------------------------

Insistir num erro é errar de novo
O que foi feito, o que foi dito
Tudo que foi vivido
Não pode ser refeito ou esquecido

6 de janeiro de 2008

NO POSTE O POEMA

Poesia no poste
E o espinho d’água no ar
Ignorância e sede de saber
Existe uma necessidade.
A necessidade de se sentir vivo, de existir,
De se comunicar, de fazer alguma coisa, sei lá eu
Simplesmente é estranho ver e sentir tanta vontade de se expressar
E só existirem coisas para se vender, nos sendo empurradas goela abaixo nos postes, nas ruas, outdoors, cartazes, faixas e painéis
Por essas ruas onde passamos quase todos os dias de nossas vidas
Nada para se vender ou comprar; nada para querer ou desprezar
Apenas mais uma voz a gritar que não estamos sozinhos
Nós: os desprezados, os perdidos, abandonados, desesperançados
Sem dinheiro nem ideais, sem rumo nem amor
Sem nada, mas desejando as estrelas, admirando o firmamento
Tentando sobreviver em meio a esse caos dos dias de hoje

Já se perguntou qual o sentido da vida?
Já achou que sua vida não tinha rumo certo?
Já se perguntou por que estamos aqui?
É claro que já
Já se fez essas e muitas outras perguntas
Mas, já chegou a alguma conclusão, a alguma resposta lógica?
Eu não.

Vale a pena viver a vida que vivemos?
Assim, desse jeito, meio desajeitadamente; sem saber pra onde ir, o que querer; querendo o que os outros dizem que temos que querer, sonhando sonhos alheios, e impossíveis.
Vale a pena não viver a vida que realmente queríamos viver?
Fazer o que nos dá prazer e satisfação; que não nos cansa e sim nos revigora; aquilo que faz com que nos sintamos úteis e realizados.

Somos seres jogados nesse mundão sem fim, e se acabando
Somos os desacreditados; desacreditados por eles
Eles quem?
Escolha quem são eles
Eles que não nos escutam
Eles que não se importam conosco
Eles que nos subestimam
Eles que tentam nos impedir de evoluir, de sermos melhores
Eles, os preconceituosos, os racistas, os canalhas, os que detêm aquilo que não merecem
Eles que não são como nós
Mesmo que nós não saibamos ao certos quem somos nós

Não há nada de novo debaixo do sol, só o próprio sol cada vez mais quente, queimando tudo que estiver sob ele.
Não há novidades desconhecidas para serem contadas. Mas as mesmas velharias não nos interessam mais.
Não há muita coisa para ser dita
Mas uma coisa que precisa ser dita, mesmo que essa coisa já seja sabia por todos:
Não é preciso ser poeta para fazer poesia
Não é preciso ser músico para fazer música
Não é preciso é preciso ser artista pra fazer arte
Para fazer tudo basta estar vivo e ter alguma mínima disposição

Estar vivo não é apenas comer, dormir e respirar
É mais do que isso
É sonhar o sonho realizável
É não se vender
É não achar que todo mundo tem um preço
É não ser alienado
É não querer o que não tem valor
É valorizar aquilo, e aqueles, que realmente deve ser valorizado
É ter alguma coisa inexplicável dentro de si
É crer que é possível, sim é possível, é possível, é possível…
É entender que ser é mais do que ter
Ser e não ter
Ser, ser sempre.
Seja.
Tenha consciência do que é ser
Ter, não
Ser, sim
Seja feliz

Vai
Vai ser feliz
Invente um significado para a felicidade e vá atrás dela
Como diria o poeta Drummond: vai ser gauche na vida!
Vai ser diferente
Vá ser o contraponto
Contrarie as estatísticas
Dê a sua própria versão para a sua história
Faça sua voz ser ouvida e ouça as vozes que têm algo de útil para dizer

Vá e não olhe pra trás
Tente fazer parte da solução, e não do problema
Nunca é tarde para dizer que ainda é cedo
Nunca é tarde
Não queira o que eles querem que você queira
Não seja o que eles querem que você seja

Faça e consuma poesia
Faça e consuma literatura
Faça e consuma música
Faça e consuma filmes
Faça e consuma arte
Faça e consuma amor

Faça a sua parte!

5 de janeiro de 2008

PEDAÇO DE PAPEL

Dinheiro é um pedaço de papel, já cantou Arnaldo Antunes
E por esses pedaços de papel muita gente faz muit coisa
Por esses pedaços de papel muita gente se animaliza
Por esses pedaços de papel muito animais são mortos e sua pele, seus dentes e sua carne é vendida
Com muita quantidade desses pedaços de papel, muitas pessoas se acham melhores do que são, e outras se acham inferiores.
Pedaços de papel de muitas cores: verdes, azuis, cor salmão, amarelas; e usam desenhos de animais para estampá-los.
Pedaços de papel
Pedaços de gente
Por esses pedaços de papel, muita gente compra, muita gente se vende.
Por não ter esse pedaço de papel, muitas coisas úteis e necessárias são negadas para muitas pessoas
As pessoas deram aos pedaços de papel o poder de dar um preço a quase tudo, a quase todos, mesmo que quase todos neguem ter um preço.
Por ter muitos desses pedaços de papel poucas pessoas podem comer do bom e do melhor, e pela falta deles, muitas pessoas passam fome e ficam desabrigadas.
Pedaços de gente
Sonhos despedaçados
Os pedaços de papel transformaram muitas pessoas em máquinas, e deram às máquinas uma importância maior do que as próprias pessoas deveriam ter.
Os pedaços de papel transformaram muitas coisas supérfluas em artigos de primeira necessidade e pessoas necessárias em seres supérfluos.
Para arrecadar cada vez mais pedaços de papel eles nos impõem impostos, taxas, cobranças
Exigem de nós o que não podemos dar e não nos dão o que deveríamos ter por direito
Por esses pedaços de papel o que foi verbalmente acertado não vale, só vale o que está escrito e registrado oficialmente em outros papéis. Papéis de ofício
Por esses pedaços de papel só damos valor a esses pedaços de papel
Sonhos despedaçados
Desesperadas criaturas
Mundo despedaçado
Tudo em pedaços por causa desse pedaços de papel