14 de agosto de 2015

GOLDFIELD - UMA CIDADE FANTASMA





Goldfield era uma cidade antiga do estado de Nevada, nascida na época da corrida do ouro em 1902. Quase uma cidade fantasma, com edifícios destruídos pelo grande incêndio em 1923, dos quais apenas dois prédios ficaram intactos. O Grande Hotel e a escola. Atualmente sobrevivia do pouco turismo daqueles que adoravam as histórias do Velho Oeste, minas de ouro abandonadas, pedaços de igrejas e muitas terras desertas.
O que um detetive de Bellevue Hill estava fazendo naquele fim de mundo? Não era para nenhuma filmagem, com certeza. Eu havia recebido um pedido de um velho amigo do meu pai, milionário e produtor de cinema, para localizar sua filha mais velha. Ela havia desaparecido depois que saíra de uma festa na Universidade. Tudo levava a crer que ela ficara bêbada e dormira na casa de alguma amiga ou em estava em algum quarto de motel com algum jogador de futebol, contudo o caso se tornou mais sério depois do segundo dia. A polícia e o FBI foram comunicados e imediatamente entraram em ação. Como de costume a morosidade das autoridades o fizeram chegar até mim. Perito em encontrar pessoas desaparecidas, maridos e esposas infiéis e mulheres em busca de alguma aventura. O problema que a minha área de atuação era bem requintada e cheia de facilidades para locomoção. Aqui era o inferno de Dante. Calor, mosquitos, cerveja quente e muito abandono. Pelos meus estudos, ali havia sido o centro aurífero de Nevada, agora totalmente decadente.
Os habitantes tentavam ser cordiais e atenciosos, mas era impossível mudar as características de um povo acostumado a aspereza daquela região, além de estarem miscigenados com os nativos e latinos.
Esse era o terceiro dia em Goldfield e não havia conseguido nenhum progresso, desde a minha última investigação de uma provável caminhonete com placa daquele lugar com uma moça no banco de trás, e como descrevera o rapaz do posto, assustada. Tanto ele reparou na moça que mal se lembrava da cor do veículo, ninguém quisera falar sobre os possíveis donos na região.
Em frente ao único hotel, aliás a única construção de tijolos, notei a moto estacionando numa das esquinas, próxima ao Correio, já era a terceiro dia naquele mesmo horário que ele estacionava ali. Com certeza não era alguém daquela região, vestido com um macacão preto de couro, devia estar derretendo dentro daquela roupa. Meu instinto zumbiu e resolvi segui-lo, afinal estava estagnado nas minhas investigações.
Uma hora depois a moto saiu, liguei o carro e fui seguindo de longe, mas sem perdê-lo de vista. A tarde estava minguando e logo escureceria. Ele saiu pela Rodovia 95 e uns três quilômetros depois entrou numa estrada de terra. Ficara mais difícil acompanhá-lo, tive que apagar os faróis e seguir a luz vermelha da traseira da moto. Fez uma curva para a direita e entrou numa estrada estreita que mais parecia um leito seco de um antigo rio.
Apesar da lua estar clara e o céu estrelado, a visibilidade estava turva, aumentada pela poeira que a motocicleta fazia. A luz foi diminuindo e eu também, até que parou e se apagou.
Minha mente fez uma viagem rápida aos ensinamentos dos amigos policiais, poderia ser uma emboscada. Saí do carro e abri o porta-malas. Uma Shotgun automática, alguns cartuchos, uma pistola automática Eagle .45 e quatro pentes, ainda bem que atendi a solicitação de Kevin, o parceiro do FBI, quando disse que viria para aquela região, segurança nunca era demais, apanhei o colete a prova de balas com apoios para os pentes da pistola, a lanterna e uma respirada bem funda. Lá fui eu atrás do desconhecido.
Podia ver o vulto, se dirigindo para uma cabana, pela sua silhueta iluminada pelo resto de claridade do horizonte, mas de repente desapareceu entre as pequenas vegetações. Agachei-me, fiquei atento aos sons e nada, nenhum movimento. O som de uma porta se abrindo na cabana fez com que desviasse a minha atenção. Um homem enorme, careca e vestindo uma camiseta regata apareceu na soleira mal iluminada e fez uma verificação de 180 graus, breve, retornando para dentro da cabana. A visão em seguida foi de uma caminhonete estacionada nos fundos, em frente ao que parecia ser um celeiro. Seria muita sorte encontrar ali o sequestrador e a moça. Olhei em volta para tentar enxergar o motoqueiro, nada. Agachado, fui contornando o terreno e deixando a cabana do meu lado esquerdo até alcançar o que parecia ser um amontoado de ferro-velho e outras coisas que não identifiquei. Mais à frente um forno de pedra, grande e alto, sem fumaça saindo pela chaminé. Seria contra a lei, invadir aquela propriedade, sem ter certeza que a moça estaria ali. Preferi checar o celeiro, mas antes que me levantasse a porta dos fundos se abriu e o mesmo homem saiu em direção ao celeiro segurando um pequeno saco plástico preto. Aguardei até que entrasse e fui me aproximando devagar e atento, destravei a Eagle e a Shotgun, coloquei a pistola de volta no coldre e continuei. Por uma fresta vi o homem acendendo um lampião à gás e depois levantar do chão uma porta de madeira e travar numa corrente. Ele pegou o lampião e desceu o que parecia ser uma escada, foi então que ouvi um lamento e vários latidos. Segurei a Shotgun e fui entrando no celeiro, antes de alcançar a escada percebi a luz amarelada se aproximando da entrada do fosso. Rapidamente encontrei um local e me agachei, deixei o cano da arma acompanhando o homem até que saísse. Ali fiquei por alguns instantes, precisava de um bom plano, porém estava numa sinuca de bico, como dizia o ditado. Se entrasse no porão, os cães alertariam o homem, também não poderia pressionar o homem antes de saber o que havia ali dentro. Fui pela primeira opção. Instinto.
Com um pé de cabra forcei a chapa de ferro que segurava o cadeado, fui levantando a tampa bem devagar, estava escuro e só podia ouvir o som de um choro abafado e o mastigar de dentes, os cães deviam estar se alimentando. Nenhum grito. O odor fétido de uma mistura de detritos humanos e de animais invadiu minhas narinas, quase vomitei, tapei o nariz, mas não iria conseguir atirar com uma só mão, respirei bem fundo e prendi o ar. Seja o que Deus quiser. Levantei a tampa, acendi a lanterna que segurava junto a trava de repetição e quase caí de costas. Dois Rottweler negros se alimentavam do que parecia ser um corpo destroçado, sem a cabeça e os membros. Os animais olharam para mim e começaram a correr em minha direção. Um tiro e estourei a cabeça do primeiro e atingi o peito do segundo, que retornou, outro disparo e finalizei. O silêncio era tão grande que pude ouvir a porta da cabana sendo empurrada e o som de passos vindo em direção do celeiro, desci as escadas e pude ver três jaulas, aquelas utilizadas para grandes animais selvagens em circos ou safaris. Um vazio e outros duas mulheres. Uma delas levantou a cabeça, que estava escondida entre os braços e gritou por socorro. A outra não se moveu. Um grito alucinado vindo de fora, vários tiros de uma automática e em seguida dois estrondos, que me lembrava o som de um Colt 45. Esperei. Silêncio. Grito de Socorro. Estourei o primeiro cadeado da jaula onde a mulher não se movia, toquei o lado do pescoço e não senti a pulsação. Apesar dos anos de noticiários e fotos em jornais sensacionalista, aquela visão me abalou e fiquei ali agachado tentando me recompor. O coração estava acelerado e só voltei ao normal quando a outra moça segurou as barras da jaula e pediu que a soltasse. Joguei a luz da lanterna em seu rosto e apesar das marcas de agressão e a sujeira, vi que era a moça que procurava. Quebrei o cadeado e abri, ela desmaiou em meus braços. Estava nua e fria, mas viva. Levantei o corpo e coloquei em meu ombro para que pudesse subir e ainda manter a arma em posição. Subi bem devagar os degraus e espiei pela beirada da saída. Tudo tranquilo e silencioso. Empurrei a porta do celeiro com o pé e dei uma olhada pela redondeza antes de sair. O homem estava caído perto da porta e não vi mais ninguém próximo. Precisava verificar antes de expor a moça, saí e a coloquei na caçamba da caminhonete, a cobri com a lona e voltei a procurar por alguém. A escuridão impedia a minha visão mais detalhada e fui até a porta dos fundos da cabana. O local estava iluminado por vários lampiões colocados em algumas paredes. O cheiro era pior e mais intenso que no celeiro. A visão que tive fez com que voltasse para a soleira e vomitasse. Seis cabeças estavam condicionadas numa estante, como troféus, na mesa uma coxa humana, assada e faltando pedaços estava sobre uma bandeja, duas mãos dissecadas com sobras de carne nos ossos. Vomitei novamente. Precisava sair dali o mais rápido possível. Notei que havia dois pratos, um de cada lado da mesa. Ele tinha um comparsa.
Fui recuando e um clarão por detrás de uma cortina que separava outro cômodo e um baque no meu peito me jogaram para fora da cabana. Fiquei aturdido, mas consciente para poder ver o que parecia ser uma mulher, maltrapilha, descabelada e segurando uma espingarda de cano longo, saindo do cômodo e vindo em minha direção. A Shotgun estava longe do meu alcance, então saquei a Eagle do coldre e disparei duas vezes, uma acertou no ombro e a outra atravessou os cabelos pela lateral, não impedi que ela prosseguisse. Um novo tiro de espingarda atingiu o assoalho da varanda próxima da minha cabeça. Dessa vez mantive as mãos firmes e a mira em sua testa, acionei o gatilho e a bala estourou a parte de trás da cabeça da mulher, derrubando-a. Acompanhei o corpo inerte por debaixo da mesa e pude ver o tremor e depois parou. Deixei minha cabeça tonta e com um zumbido no ouvido direito cair sobre o assoalho da varanda.
Depois de alguns segundos me virei e apoiado nos braços fui me levantando com dificuldades. Nesse momento valorizei os policiais que enfrentam tiroteios com bandidos pela vida inteira. O peito ardia e respirava com dificuldades e a arma pesava em minha mão. Foi então que vi ao lado da caçamba da caminhonete, o vulto de um homem usando um chapéu de abas largas e um sobretudo que balançava ao sabor do vento, ele parecia verificar a jovem, tentei levantar o meu braço e apontar a arma, porém parecia que ela pesava uma tonelada. Ele ficou de frente e sacou sua arma do coldre preso na coxa direita e atirou, pensei que era o meu fim, contudo o baque e o estrondo de um tiro, que arrancou parte do telhado da varanda me fizeram olhar para trás. Era o motoqueiro que jazia com a viseira do capacete arrebentada e uma poça de sangue se formava entre o capacete e o assoalho. As pernas fraquejaram e caí sentado. O vulto girou o revólver no dedo indicador e o encaixou no coldre e foi se aproximando e quando chegou na luminosidade que vinha da cabana, pude enxergá-lo, senti um leve tremor percorrer meu corpo. Ele não tinha um rosto, era apenas uma cabeça descarnada, como de um cadáver em decomposição, fiquei estático esperando pelo pior, aliás o que mais poderia acontecer de pior. Ele parou e enfiou sua mão no bolso do colete e jogou uma distintivo de prata sobre o meu peito.
- Você mereceu, pode ser meu delegado. Disse ele com um sotaque interiorano e foi saindo gargalhando.
Foi depois que entreguei a moça ao amigo de meu pai, foi que descobri a história que ainda me gela a alma. Virgil Earp era o seu tataravô e havia sido xerife em Goldfield, onde morrera de pneumonia.
O caso ficou sem solução para o FBI e para a polícia da região que encontrara os corpos e nenhuma evidência que desse pistas do matador, para eles fora algum vigilante que fizera a lei pelas próprias mãos. Preferi deixar assim, aliás quem acreditaria em mim.
Todo ano, em 18 de outubro, viajo para Goldfield e faço uma visita ao túmulo vazio de Virgil Earp, já que seu corpo fora translado para Portland no Oregon a pedido da filha Nellie, sento-me ao lado da sepultura, uma oração de agradecimento e dois copos de uísque.
Ainda, hoje, posso ouvir aquela gargalhada fantasmagórica toda vez que resolvo um caso. A estrela, hoje, faz parte da minha vestimenta. “Deputy US Marshal.”

                                                                                                  Kiko Zampieri



30 de julho de 2015

Dsafio Espinho D'água de Contos - As Aparências Enganam - A VIDA ENSINA - autor Will




Três e meia da tarde. Um sol de rachar. De um lado a entrada o shopping center, que à sua frente tinha o estacionamento, do outro lado um semáforo na avenida margeada por um córrego fétido que alimenta de detritos o rio Tietê mais adiante, onde eu aguardava o sinal abrir para os pedestres e eu poder atravessar. Numa das travessas, enquanto os carros paravam diante do sinal vermelho, dois moleques, que não deveriam ter mais de dez ou doze anos, sujos, mal vestidos e mal encarados, chegavam junto dos vidros dos carros e pediam alguns trocados. Alguns motoristas davam algumas moedas, outros negavam e alguns até fechavam o vidro para não serem incomodados pelos meninos mestiços. Na segunda vez que o sinal fechou, apenas um dos garotos pediu dinheiro, o outro ficou encostado num poste de luz olhando as águas escuras e putrefatas do córrego.
O sinal finalmente abriu para mim e eu segui em direção ao shopping center enquanto pensava nos moleques. Por que pediam dinheiro? Para comprar cola de sapateiro e ficar a noite toda chapados para enganar a fome e o frio da madrugada? Comprar comida? Dar o dinheiro para algum adulto filho da puta que os explorava sem que ninguém do poder público tomasse alguma providência? Comprariam alguma arma; sei lá, fiquei pensando, sem saber o que pensar direito.
Entrei no estacionamento do shopping center, subi até o térreo, o sol rachando minha cabeça, fervendo minhas ideias. O estacionamento estava vazio, numa quinta-feira à tarde era normal. No meio do estacionamento havia uma grande armação de fios e plástico; era uma enorme cama elástica onde se poderia ficar pulando por três minutos pagando-se seis reais. O som bem alto tocando música junto da entrada do cercado da cama elástica, tentando chamar os fregueses invisíveis. Segui até a entrada do shopping, nada me interessava ali, apenas a livraria, o cinema e o que eu queria no momento: o ar condicionado. O shopping era apenas uma passagem, meu destino era outro. Continuei ainda pensado naqueles dois moleques que pediam dinheiro no sinal.
Passados vinte minutos, saí do shopping para ir até meu destino, quando passei novamente pelo estacionamento fui surpreendido com o que vi. Na cama elástica, pulando e dando cambalhotas estavam os dois moleques que estavam pedindo dinheiro do sinal onde parei minutos antes. Davam uma, duas, às vezes, três piruetas seguidas, pareciam ginastas profissionais, com um sorriso largo, feliz e despreocupado no rosto. “Então era pra isso o dinheiro” disse para mim mesmo. Foi quando parei um pouco para pensar, mesmo embaixo do sol de rachar era preciso parar e pensar. Senti vergonha de ficar pensando certas coisas, caindo nas mesmas armadilhas preconceituosas que nos condicionam a pensar sempre as mesmas coisas das mesmas pessoas, situações ou sentimentos. Por que eu, quando vi aqueles dois moleques na esquina pedindo dinheiro, não os vi apenas como duas crianças? Por que vi dois seres tão estranhos do que realmente eram?
Passei pela cama elástica, os dois meninos continuavam pulando, aproveitando os três minutos de diversão aos quais tinham direito, e saí sentindo um amargo na alma, daqueles que a gente sente quando se vê diante da nossa própria mesquinhez, mas sabe que ao menos aprendeu mais uma lição que vida insistentemente ensina aos que não fecham os olhos e ouvidos para sua voz sutil, mas visceral e indelével.

28 de julho de 2015

Desafio Espinho Dagua de Contos "As Aparências Enganam" - HOTEL CALIFORNIA - autor Kiko Zampieri





Jennifer estava cansada, a vista turva e uma leve tontura, parecia estar entorpecida pela longa viagem. Quando avistou aquele hotel, suspirou e acelerou seus passos para chegar até a recepção.
Era uma jovem corajosa, passara sua vida lutando para sobreviver, maus tratos na família, namoros violentos, bebida e até droga pesada. Conseguira sobreviver e agora queria encontrar uma paz tão procurada, num lugar com muito sol, praia e tranquilidade e quem sabe um homem decente que a amasse.
Nada havia sido planejado para aquela viagem, nem estar diante daquele hotel. O salão estava sombrio e vazio e um balcão no fundo indicava ser a recepção. Um homem vestindo um terno preto, camisa branca e uma gravata borboleta vermelha a aguardava atrás daquele balcão.
Colocou a pequena mala no chão quadriculado com pisos brancos e pretos e pediu um quarto. Sem dizer nenhuma palavra, virou o livro de registros e assinalou para que ela preenchesse. No alto da folha, em letras douradas, o nome do hotel. Hotel Califórnia. Sorriu ao lembrar da música do seu passado. Depois recebeu a chave do número 13 e seguiu pela escadaria, ficava no primeiro andar. A luz era pálida e ela teve que subir com cuidado, depois o corredor com a mesma luz até a porta, abriu, buscou o interruptor, a mesma luz, jogou a pequena mala sobre a cama e foi até a janela, abriu as cortinas e pôde ver a rua escura e deserta. Fechou as cortinas e foi se sentar na cama, destravou os dois ferrolhos da mala e abriu. Uma camisola bege de algodão, era a única peça. Tirou sua roupa e vestiu a camisola, queria dormir e poder ver o sol entrando pela sua janela, pela manhã.
Um grito vindo do corredor a despertou. Outro grito agora mais perto. Seu corpo tremeu. Uma luz vermelha invadiu sua janela e os vidros se estilhaçaram pelo chão e sobre a cama. Ela correu até a porta. Não abria. Sacudiu com mais força. Nada. Uma sombra passou por ela e pela porta, virou-se e não havia nada, nem a luz vermelha e nenhum vulto. Outro grito, agora vindo do andar de baixo. Sacudiu a porta novamente, abriu. Deparou no corredor várias pessoas correndo desesperadamente para a escadaria. Um incêndio. Um terremoto. Seguiu as pessoas pela escadarias. Um passo em falso a fez rolar pelos degraus até o chão quadriculado. Não havia ninguém. Outro grito e dessa vez no andar de cima. Seu corpo estava trêmulo, pelo medo ou pelo chão frio, não sabia, queria se levantar e sair daquele lugar. O balcão estava vazio, as luzes começaram a piscar. A porta de entrada trancada. Entrou em desespero. Outro grito, agora mais próximo dela, virou-se e um homem enorme descia pela escada. Uma das mãos carregava um enorme facão e na outra uma cabeça segura pelos longos cabelos. Outro grito, agora era o seu. Encontrou forças e saiu da porta no exato momento em que ela foi arrebentada e um vulto surgiu da escuridão.
Era um homem alto, capa de chuva negra, um chapéu de abas largas que cobriam parte do seu rosto, botas e na mão uma Winchester 33, com o cano niquelado e brilhante. Ele ficou ali parado debaixo da soleira. Ela estava paralisada, mas foi se acalmando quando os olhos dele fixaram nela e sentiu um certo conforto correr por suas veias. O homem voltou-se então para o outro que estava parado no final da escadaria e descarregou cinco tiros. Dois no peito que o fizeram dar um passo para trás, um em cada joelho que o fizeram desabar sobre o piso quadriculado e o último de misericórdia na cabeça, fazendo-a se espalhar pelo chão.
Ela estava toda encolhida sobre uma das cadeiras estofadas, sentiu uma mão macia e quente segurar em braço e a levantar. Então foi erguida pelos braços fortes, ajeitada no peito do seu salvador, estava se sentindo segura agora. Foi caminhando pelo salão, subiu as escadas e com o pé abriu a porta do quarto dela. Delicadamente colocou-a sobre a cama e a cobriu. Ela sorriu e apertou a mão dele, como se não quisesse deixá-lo ir. O cansaço era maior e seus olhos foram se fechando descontrolados, antes que adormecesse pode ouvir o estranho gritando ordens a um grupo de anjos na porta.
- Diminuam a dosagem da Amitroptilina e pelo amor de Deus, mantenham as correias presas! Vocês pensam que isso é um hotel?

24 de julho de 2015

DESAFIO ESPINHODAGUA DE CONTOS - As Aparências Enganam - "GOLD DIGGER" de Leona Volpe



“Encontre-me” — ele sussurrou em seu ouvido — “você precisa me encontrar”. Clara abriu os olhos em sua cama e apertou o lençol contra o rosto, sem saber o que fazer. Ele, o seu fantasma pessoal estava sentado na poltrona em frente à cama e não se parecia com qualquer assombração comum.
Tinha começado uns meses antes, com um presente de uma amiga. Um colar inofensivo de sementes amazonenses. Desde que ele havia entrado para sua casa, aquela criatura vinha perturbando seu sono.
“Venha” — ele lamuriou de novo e ela puxou as cobertas. O ser era um homem alto, de pele clara e um imensamente sedoso e liso cabelo branco que contrastava com suas sobrancelhas escuras e olhos violetas. Era também um choque contra o cocar de penas negras. Ele não se parecia com um nativo, de qualquer forma. Estava mais para as lendas das icamiabas, as amazonas loiras que os portugueses enfrentaram. “Venha...” ele pediu e ela se apertou um pouco mais. Antes que percebesse, havia dormido.
No outro dia comprou as passagens, contou a história para um guia e mandou fotos do colar. Quando ele aceitou a aventura ela se enfiou no avião, esperando que de alguma maneira pudesse jogar aquele colar no rio e que talvez um boto o engolisse. Esperava que caísse diretamente em uma tribo de índios, inclusive, mas isso não aconteceu.
Ao invés, quando chegou a Manaus foi recebida por uns tipos bem civilizados, em prédios bem civilizados também e como uma boa paulista, ela civilizadamente arranjou seu tour pelo lado selvagem da vida e recontou um pouco da história ao seu guia, já que havia adiantado seu caso via email.
Ele franziu as sobrancelhas, olhou o colar e disse algumas palavras na língua nativa para um menino indígena. Só viu suas sobrancelhas se erguendo como se ele estivesse realmente admirado.
— O que? — Ela perguntou — ele é tipo aquela vampira de Um Drink no Inferno? — O guia riu dela, mas ainda não parecia confortável.
— Não é nada.
Ao anoitecer eles seguiram para o barco que a levaria pelo rio Amazônas, para conhecer as aldeias ribeirinhas e admirar as belezas naturais. Na escuridão da noite, ela podia ver as estrelas no céu e na água e era algo agradável de se ver no silencio da floresta, com apenas uns sons silvestres emergindo da tranquilidade.
Muito ao longe ela ouviu o suave bater de tambores e escorada no convés do barco, Clara não podia precisar de onde vinha o som. Por um momento achou que era seu próprio guia brincando com sua imaginação e no outro, imaginou que poderia vir de fato da floresta. Seu guia em questão pareceu sentir que estava sendo acusado injustamente e se aproximou dela. O guia sentou-se ao seu lado e perguntou:
— O que você acha desse fantasma? Que essa criatura está te perseguindo?
— Pode ser — ela respondeu — talvez queira me matar, talvez me seduzir como uma sereia, me trazendo para esse local — o guia não respondeu e ela se virou para ele — não são assim suas histórias de boto? No dia um peixe, de noite um homem bonito?
— É — ele respondeu lentamente, observando o chão amadeirado — as coisas no Amazonas nem sempre são o que parecem.
Clara apertou os olhos.
— O que quer dizer? O que pensa que ele é?
Ela não teve uma resposta adequada. Na verdade, sua resposta foi bastante rude, com uma navalha sendo empurrada em direção à sua garganta.
 — Se sua amiga conseguiu um colar de Akakor e esse maldito pajé esta te chamando, isso quer dizer que pode nos levar até o ouro!
— Que ouro? — Ela engasgou de ódio e pensou em chutá-lo. Repensou a ideia quando se lembrou da navalha e sentiu ainda mais ódio. Estava prestes a lhe dizer o quão cretino ele era, quando os olhos do guia se abriram e a sua boca caiu em uma expressão de completo espanto. Ele pendeu para o lado pesadamente e quando despencou no chão, havia uma flecha atravessando seu peito, aos poucos fazendo seu sangue verter pelo chão.
Pensou que ia desmaiar quando algo a puxou do chão e ela foi levada no ar em um rápido movimento, assistindo umas figuras voarem no escuro, seguras em cipós. Quando aterrissou novamente, encontrou o famigerado pajé a observando como se fosse uma criança malcriada. Ele puxou o colar amaldiçoado de suas mãos e o balançou em frente ao seu rosto, esfregando as contas entre os dedos até que as contas que pareciam sementes secas se esfarelassem, mostrando contas de ouro.
— As aparências enganam — ele disse, em português perfeito — você pode voltar para sua cidade — ele apontou para um caminho entre as árvores — ou pode descobrir o que mais as aparências escondem — olhou em seus olhos e guardou o colar no cinto de roupagem rústica.

Antes que ele estivesse indo embora, já estava em seu encalço, procurando o que mais vinha sendo escondido dela.