8 de julho de 2015

Feijoada, Insulina e Beauty and Perfect Body 2015. (conto - Will)



Quinta-feira

09h. 00min.
Pedro se trocava no vestiário da academia. Normalmente começava seu treino às 8, mas hoje havia acordado tarde e se atrasara. E sentia remorso por isso; não gostava de chegar atrasado para o treino. Levava os exercícios de musculação muito a sério. Era um assíduo frequentador de academias há dez anos. Ele era aquilo que muitos frequentadores e não frequentadores desses estabelecimentos costumam chamar de “bombado”. 28 anos de idade, 1 metro e setenta e cinco de altura e oitenta quilos de pura massa muscular. O percentual de gordura no corpo não chegava a dez por cento. Ia à academia seis dias por semana, seguia uma dieta rigorosa e era obcecado pelo universo bodybilder. Todos na academia o conheciam e muitos dos outros rapazes que também malhavam o admiravam por seu comprometimento e empenho nos exercícios. As garotas tinham uma queda por ele, pois além de um corpo perfeito, seu rosto não era de todo feio e havia um quê de fascínio no modo como ele falava e até nas piadas sem graça que contava.
Nas últimas semanas ele estava treinando mais pesado, pois decidira pela primeira vez participar de um concurso de fisiculturismo. Todos na academia o apoiavam e apostavam que suas chances eram boas de faturar a medalha de outro.

09hs. e 25min.
Já trocado, ele tirou da mochila o estojo que continha a seringa e a ampola. Ele costumava contar muitas histórias, fatos e descrever traços da sua personalidade para seus amigos da academia, mas havia uma coisa sobre ele que jamais contou para os outros. Algo que nem ele mesmo sabia por que ocultava, mas não queria que os outros soubessem. Pedro era diabético. Costumava aplicar a injeção de insulina antes de sair de casa. Não podia deixar de aplicar a dose diária. Seria totalmente imprudente.
Quebrou a ampola, sugou o conteúdo pela agulha para dentro da seringa e, sempre olhando para a porta de entrada do vestiário, ele aplicou na veia do braço esquerdo. Quando já estava no fim daquele procedimento, a porta se abriu e Dilcinho, outro frequentador assíduo da academia, entrou no recinto. Pedro disfarçou, recolhendo a seringa e pondo-a dentro da mochila. Ambos se cumprimentaram. Pedro guardou a mochila dentro do seu armário, dirigiu um sorriso constrangedor para Dilcinho e saiu do vestiário. Dilcinho meneou a cabeça positivamente para Pedro e antes de posicionar-se no mictório, olhou para o armário de Pedro e franziu a testa, tentando entender a seringa vazia na mão do mais dedicado aluno da academia.

10hs. e 10min.
Pedro já estava na metade do treino quando sentiu o estômago se retorcer. Imediatamente lembrou-se da feijoada. Normalmente ele seguia à risca a dieta, sem deixar escapar nenhum detalhe dos valores calórico, proteico e vitamínico do que ingeria, mas naquele dia, pelo fato de acordar atrasado, de saber que não lhe faria bem treinar em jejum, de não querer perder tempo preparando sua vitamina no liquidificador e de estar morrendo de fome, abriu a geladeira e lançou o olhar sobre o que estava lá e que poderia ser rapidamente ingerido por ele. Viu o resto da feijoada do dia anterior. Seu pai era um homem que respeitava a tradição de se servir feijoada nas quartas-feiras e impunha tal pratica aos demais da família. Pedro recusava-se a comer aquela explosão de cheiros, gorduras e calorias, porém naquela quinta-feira não resistiu; a fome era maior que a consciência de que aquilo pudesse não lhe fazer bem àquela hora da manhã, antes de um treino pesado na academia.
Quando estava deitado no aparelho, segurando pesos de mão de mais de 22 quilos, e fazendo movimentos de abrir e fechar os braços, num exercício chamado “crucifixo”, ele sentiu a primeira pontada, ignorou a dor e continuou sua rotina de treino. Contudo, quando estava na execução de um exercício cujo nome era peculiar, além de ser alvo de piadas de duplo sentido, chamado “rosca direta”, veio-lhe a segunda e mais forte dor na barriga. Conseguiu até mesmo ouvir a reviravolta em suas entranhas. O bolo alimentar composto por orelha, joelho e rabo de porco, além da carne seca e do feijão preto pareciam estar declarando claramente que não pretendiam permanecer em seu estômago por muito tempo.

10hs. e 30min.
Já não aguentando mais de dor, Pedro saiu às pressas da academia, com a mão no estômago, fazendo uma careta e se negando a dizer aos outros o que se estava se passando com ele. Realmente seria constrangedor revelar aos outros que estava indo embora por causa de uma diarreia que o arrebataria a qualquer momento. Nem mesmo se deu ao trabalho de despedir-se dos que ficaram treinando, o que gerou certa preocupação entre todos.

10hs. e 45min.
— O que será que aconteceu com o Pedro? — perguntou Regininha, que treinava no aparelho ao lado do último aparelho de musculação que Pedro usava antes de se levantar e ir embora.
— Não faço ideia — respondeu Mauro, um brutamontes que comia uma banana.
— Vai ver foi efeito das bombas que ele anda tomando — sugeriu Dilcinho, que acompanhava de perto a conversa.
— Bomba? Tá maluco? O Pedro não usa essas coisas — disse Mauro, indignado.
— Vou contar uma coisa que vi, mas só se vocês prometerem não contar para ninguém que fui eu quem disse, ok? — disse Dilcinho.
Mauro e Regininha se olharam por um segundo, depois olharam para Dilcinho e balançaram a cabeça, aceitando guardarem anonimato do seu nome.
— Sem querer, quando entrei no vestiário, vi o Pedro com uma seringa e uma ampola mão; tinha acabo de aplicar no braço.
Regininha e Mauro se olharam com os olhos arregalados.
— Agora o que vocês acham que era aquilo, complexo vitamínico? Acho que não, né — disse Dilcinho, eriçando uma das sobrancelhas.
— Mas ele disse que era contra o uso dessas coisas — falou Regininha.
— Todos dizem, mas a maioria usa — respondeu Dilcinho.
Mauro e Regininha iam fazer mais perguntas, mas Dilcinho disse já estar de saída, seu treino já havia acabado. Mas antes de ir, mais uma vez fez os dois prometerem que não contariam que fora ele a fonte da informação.

11hs. 00min.
Fátima acabara de chegar para o treino e ligara a esteira para andar uns dez minutos antes de começar os exercícios; na esteira ao lado estava Regininha, que acabara o treino e estava fazendo uns vinte minutos de aeróbico antes de ir embora. Ambas se cumprimentaram e em menos de trinta segundos, Regininha perguntou:
— Já soube da última que aconteceu aqui?
— O que foi?
— Sabe o Pedro, aquele bonitinho que vai participar do concurso de fisiculturismo?
— Claro, todo mundo o conhece. Até já me convidou para sair uma vez.
— Pois é, parece que passou mal e teve que sair às pressas do treino.
— Nossa! E é coisa séria?
— O que se comenta por aí — ela parou de falar, olhou para os lados, depois continuou — é que ele passou mal por causa dos anabolizantes que andava tomando justamente para ter mais chances de vencer o concurso.
— Caramba. Não pensei que ele fosse capaz dessas coisas.
— Eu também não. Disseram que eram essas coisas de hormônio para cavalo. Mas não entendo nada disso.
— Que é isso gente! Não compensa se drogar só para ter mais chances de ganhar um concurso de fisiculturismo.
— Mas acha que os outros competidores também não usam essas coisas?
— E onde está o Pedro agora?
— Ouvi alguém comentando que ele devia estar no hospital. E certamente quando isso acontece, os usuários costumam ficar muito mal, com sequelas gravíssimas. Isso quando sobrevivem, é claro.
— E como souberam que ele usava essas coisas?
— Ah, isso não sei. Só estou contando o que todo mundo já está comentando.
Fátima ia fazer mais perguntas, mas Regininha despediu-se dizendo que já estava atrasada para um compromisso. Fátima balançou a cabeça e refletiu sobre o quão mal poderia fazer a vaidade de um rapaz jovem que se drogava com hormônio para cavalo unicamente para ganhar um concurso de fisiculturismo.

12hs. 00min.
O telefone da recepção da academia tocou. Era Evilásio, o organizador do concurso de fisiculturismo “Beuty e Perfect Body 2015”, evento realizado há mais de dez anos e que gozava de certo prestígio entre frequentadores de academias de musculação e compradores do mercado de suplementos e materiais esportivos; uma prova desse prestígio fora a cobertura dada por uma emissora de tv do concurso realizado no ano anterior. Evilásio parecia tenso; queria falar com Bruno, o dono da academia.
— Fala Evilásio, tudo bem? — disse Bruno.
— Não está nada bem.
— O que aconteceu?
— Como assim “o que aconteceu?”. Não ficou sabendo do seu aluno, o Pedro?
— Cheguei faz apenas uma hora. Disseram que ele passou mal.
Evilásio bufou do outro lado da linha.
— Pois é Bruno, o que acontece é que Rogério, um dos participantes do concurso, faz parte de um grupo no whats app, esse aplicativo para smartphones.
— Eu sei o que é whats app, não precisa explicar.
— Pois quem precisa explicar é você, porque o Rogério ficou sabendo, por meio desse grupo, do qual fazem parte alguns alunos da sua academia, que o Pedro passou mal porque teve uma overdose de anabolizantes que injetou aí mesmo, no vestiário da sua academia. Tudo com o propósito de levar vantagem sobre os demais competidores do concurso.
— O Pedro? Aplicando anabolizantes? Na minha academia?
— Não ficou sabendo?
— Não.
— Hum, típico; sempre o último a saber. Sabe o estrago que uma coisa dessas pode causar ao meu concurso e à sua academia?
— Claro que sei. Mas precisamos ter certeza antes de tomarmos qualquer atitude e acabar cometendo uma...
— Eu é que não vou ficar sem fazer nada diante dessa boataria toda. Estou cancelando a inscrição dele, sumariamente.
— Não acha que está se precipitando?
— Eu? Diz isso porque não sabe o que andei ouvindo da sua academia nessa última hora.
— O que andaram dizendo? — Bruno parecia preocupado.
— Entre outras coisas que, se ele fez isso aí dentro, só podia ser porque contava com seu consentimento.
— Isso é absurdo. Todos sabem que sou um dos que mais criticam quem faz uso dessas substâncias.
— Por isso mesmo estão descendo a lenha em você.

14hs. e 17min.
Pedro tomava seu terceiro copo de água de coco; tentava se reidratar depois de mais de uma hora e meia passada no banheiro colocando quase todos os bofes para fora. Nunca tivera uma diarreia como aquela. As dores e cólicas estomacais foram quase insuportáveis.

6 de julho de 2015

ATO DE CONTRIÇÃO (autor Kiko Zampieri)



A pequena igreja de Jucamirim estava toda enfeitada para a festa junina, que aconteceria no próximo domingo, dia de Santo Antonio. Festa aguardada, principalmente, pelas moçoilas solteiras e com a idade um pouco avançada.
O Padre Rufino, como em todas as festas, procurava arrecadar prendas, doações em dinheiro e alimentos, uma parte iria para a festa e outra para o pequeno orfanato da cidade. Que era pequeno na estrutura, porém com alto nível de aquisições. E geralmente, alguns meses depois das festas, sempre aparecia uma novo integrante para o orfanato.
Como todas as manhãs, rezava a primeira missa, depois atendia os pecadores em seu confessionário, um pequeno armário com uma cortina grossa de cor vinho e uma abertura lateral por onde ouvia as confissões. Naquele dia fora diferente. Após o término das confissões rotineiras, um homem, que estava sentado na primeira fila dos bancos, chamou a atenção do velho padre. Era um estranho na comunidade, um jovem com pouco mais de vinte e cinco anos, mas como todos os anos, muitos viajantes apareciam pela cidade para participarem da festa, foi se aproximando e calmamente interpelou o desconhecido.
- Salve, meu filho!
- Olá padre. Disse levantando a cabeça e fixando o olhar no velho padre.
- Posso ajudá-lo?
- Preciso me confessar com urgência. Respondeu o desconhecido.
- Claro, meu filho. Venha comigo até o confessionário. Orientou o padre.
O padre se acomodou na velha cadeira estofada dentro do cubículo e o desconhecido se ajoelhou na lateral.
- Quando foi a última vez que o senhor se confessou?
- Essa é a primeira vez, padre.
- Se está procurando arrependimento e perdão, veio ao lugar certo.
- Padre tirei a vida de cinco pessoas e queria confessar os meus crimes e encontrar a paz no meu coração. Disse o homem emocionado.
O padre ficou alguns segundos perplexo, mas era a sua função, ouvir a confissão e passar o ato de contrição e as orações necessárias para o perdão.
- Pode falar, meu filho.
O homem então começou a descrever seus crimes. Contou que o primeiro fora a dez anos atrás, um tal de Joaquinzinho, que trabalhava num sítio do Senhor Alberto, o matara na estrada que ia da cidade até o sítio. Dez facadas. O padre em silêncio e boquiaberto, lembrara do crime que havia abalado a comunidade. O homem continuou o relato sobre o segundo, um homem chamado Pedro Caculé, carroceiro da cidade, matara também a facadas, ele e o seu cavalo. Novamente o padre perdera a respiração.
O terceiro tinha sido Zé Manco, que trabalhava na farmácia do Senhor Gomes, também a facadas e deixado no meio da praça. Silêncio profundo e agora junto vinha uma angústia sufocante, ele se lembrava de todos aqueles assassinatos e todos não haviam sido solucionados e agora estava frente a frente com o assassino.
O homem continuou, o quarto tinha dado mais trabalho, pois era filho de um juiz e tivera que esperar muitos dias até que ficasse sozinho na casa. Morreu na cama com a barriga aberta. O quinto e último era o filho do fazendeiro Coronel Justino, esse morrera em outra cidade, pois havia fugido depois das mortes anteriores.
- Padre pode perdoar meus pecados?
- Reze o ato de contrição e um Pai-Nosso e dez Ave-Marias para cada morte e sua alma estará salva.
Antes que o homem saísse o padre fez uma última pergunta.
- Qual o motivo desse ódio, meu filho?
- Sou o filho da Rita do Brejo e fiz tudo por vingança. Vingá-la daqueles que abusaram e me geraram.
O padre quase teve um mal súbito. Lembrara da mulher, havia sido estuprada quando voltava da escola noturna e deixada na beira da estrada. Sobrevivera e fora embora da cidade sem nunca dizer os nomes dos estupradores.
- Ela não suportou a vergonha, mesmo fugindo dessa cidade. Entregou-me ao orfanato desse lugar e depois se suicidou, afinal ela queria que eu encontrasse o meu pai.
O homem se ajoelhou na primeira fila e rezou os seis Pai-Nossos e as sessenta Ave-Marias, enquanto um filete pegajoso e vermelho escorria por baixo da cortina cor de vinho.

1 de julho de 2015

A MENINA DO ÚLTIMO TREM - (conto - autor Kiko Zampieri)





Eu morava numa cidade próxima da capital. Era uma cidade-dormitório. Afinal todos os moradores, em sua maioria, só voltavam para dormir, no dia seguinte lá estavam embarcando no trem para irem trabalhar ou estudar. Eu era um deles. Trabalhava e estudava na capital. Geralmente embarcava no primeiro trem lotado e voltava no último, sempre vazio, se não fosse pela presença de uma garota no fundo do vagão todas as noites.
Foi a partir de fevereiro que começamos a nos encontrar no mesmo vagão, todas as noites no último trem, os cinco dias da semana.
Estranho era que ela sempre estava cabisbaixa e nunca tinha visto o seu rosto, devido aos longos cabelos castanhos que cortinavam a sua face. Silenciosa durante toda a viagem e seguia para a última estação, já que eu descia na penúltima.
Geralmente, eu cochilava durante a viagem, uns vinte minutos entre a estação que embarcava até a minha descida. Ela sempre estava no mesmo lugar quando eu entrava no vagão.
Pensei várias vezes tentar conversar ou chamar sua atenção, deixando cair a mochila ou uma crise de tosse, porém ela não movia um músculo. Algumas vezes achei que estava morta, contudo a mudança de vestuário mostrava que ela descia em seu destino e depois voltava.
Durante aqueles três meses eu ficara intrigado com a presença daquela garota no fundo do vagão, cheguei até a mudar de assento e me aproximar, mas achei que seria inconveniente incomodar alguém que parecia não querer manter nenhuma conversa.
Lembro bem daquele dia revelador. Era uma sexta-feira. Enquanto eu, rotineiramente, regressava para a minha casa e ela se mantinha em seu lugar no fundo do vagão, outros estavam festejando o alvorecer do final de semana e nesse dia, duas estações depois que embarquei, três rapazes entraram no vagão e se acomodaram entre eu e ela. Estavam alcoolizados e tentavam chamar a atenção da garota com as vozes altas e piadinhas inconvenientes. Fiquei no meu lugar, afinal eu não era nenhum cavaleiro da idade média e nem tinha um porte físico adequado para intimidar aquele grupo. Fiquei na espreita e atento.
Um deles foi se aproximando, segurando nas barras laterais para se manter em pé, o balanço e o álcool faziam com que o corpo dele fosse de um lado ao outro. Ela se mantinha cabisbaixa, o cabelo cortinando seu rosto, as pernas juntas e as mãos acomodadas sobre elas.
Ele falava alguma coisa, quase inaudível, e depois gargalhava, voltando-se para os outros rapazes, depois repetia e até que os outros também se levantaram e dessa vez me olharam enviesado, como se quisessem que eu me mantivesse no meu lugar. Não precisava nem pedir. Contudo um instinto incontrolável não conseguiu me conter e levantei.
- Ei! Deixe a menina em paz! Gritei, mesmo com o coração acelerado pelo medo.
- Senta aí e fica bem quietinho senão vai sobrar para você. Disse o maior deles.
Já que eu tinha enlouquecido e vestido a armadura reluzente, fiquei em pé e ameaçador, punhos cerrados e os pensamentos em turbilhão rodopiavam a minha mente, mais pelo medo do que pela estratégia de luta.
Um deles, então, resolveu vir até mim e acabar com aquela representação burlesca de herói de história em quadrinhos. Antes porém, que ele me alcançasse um grito estridente fez se ouvir pelo vagão, fazendo com eu fosse jogado para trás e os dois vidros das janelas em frente se estilhaçassem.
Por alguns segundos, quatro homens ficaram estáticos e desorientados. Eu fui me recobrando e me apoiei numa das barras verticais, um dos rapazes ergueu seu braço na intenção de tocar a cabeça da garota, foi um ato infeliz. Antes que ele alcançasse seu alvo, ela se levantou, não era mais a garota, confesso que não consegui identificar, pois as luzes internas começaram a piscar e pude ver aquela frágil garota saltar sobre o rapaz. Um grito e um pequeno uivo e foi ela para cima dos outros dois. Eu estava petrificado.
Em poucos segundos a luz ficou firme novamente e pude então ver com mais clareza, era uma cena aterrorizante, três corpos dilacerados e espalhados pelo chão do vagão e a menina sentada ao lado de um deles, o último. Fechei meus olhos e fiquei esperando o meu fim. Senti um hálito quente em frente ao meu rosto, não abri os olhos. A respiração ofegante e o calor que circundava meu rosto, como se quisesse me desenhar. De repente senti uma aspereza úmida subir pelo meu rosto, como uma língua e um ronronar tranquilo.
Quando o trem parou na estação, abri os olhos, três corpos dilacerados jaziam no chão frio do vagão. Uma poça do sangue esticara, devido ao movimento do trem, por baixo dos bancos. A menina não estava mais ali. A porta se abriu e saí apressado, alcancei a catraca, que quase deu duas voltas, subi as escadarias e corri aterrorizado pelas ruas escuras e desertas, sempre com a impressão de estar sendo seguido.
Ao chegar na esquina da minha rua, onde havia uma loja de discos e um poste, cujo facho iluminava sua grande vitrine, parei ao ver meu reflexo. Não era eu, era a menina com a cabeça levantada, deixando escapar um sorriso monalisado no rosto. Nesse momento percebi que as minhas mãos estavam sujas de sangue.