14 de janeiro de 2008

Poema no poste 2

Deixo aqui alguns dos poemas que andei colando nos postes, aos poucos em coloco todos aqui:


No poste o poema
E na testa o dilema:
Poesia é ou não
Solução para o problema?

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O sol tá quente?
Então esfrie a cabeça
Feche os olhos e pense
Em sombra e água fresca

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Tá com frio?
Então se aqueça
Pense no amor febril
Que dá um arrepio
Dos pés à cabeça

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Não olhe pra trás
Siga sempre em frente
Lembrar do passado
É esquecer o presente

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Amor pode durar pouco
Mas se ele for bem louco
É como se durasse uma eternidade
É ou não é verdade?

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Cada um na sua
E você na minha
E por essa estreita rua
De mãos dadas a gente caminha

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O buraco é mais embaixo
Eu sei
E é lá que eu me encaixo
No meio

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Ei você, pare pra pensar
Mas não pense em parar
Pois pensar em alguma coisa
Já é chegar em algum lugar

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No sonho, o pombo esmigalhava o pão
No despertar, o pão era eu
E o pombo era o mundo!

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Custou muito caro não ser ninguém
Pois o ninguém achava que era alguém
E outro ninguém acabou pagando o pato
Porque o pé-de-pato é gente também

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Quando, pela primeira vez,
Eu vi a foto de Che Guevara
Eu me perguntei:
“Pra onde será que ele olhava?”

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Se abre um vão
entre meus pensamentos
E é nesse lapso ininteligível
Que se encontra o prazer espasmódico
da perda dos sentidos

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Não consigo esquecer
Nem perdoar
Quem me fez sofrer
Quem quis me magoar
Sou sofredor
E por convicção digo não
Aos que dizem sim
Sou assim por opção
E optei pelo meu fim

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Ouvi uma salva de tiros,
É carnaval antecipado;
Também ouvi uma nuvem de gritos,
E a cada ano dura mais o dia de finados.

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Que horas vãs!!
E pior é ver que as horas
Transformaram-se em dias
E os dias transformaram-se em anos
E os anos foram em vão
E a vida vã foi só um vão no mundo

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Não sou homem nem mulher
Sou a insaciável sede de sangue
Que seca minha estreita garganta

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Não sou branco nem negro
Sou vermelho como a chama
Que flameja nos meus olhos

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Não sou ateu nem cristão
Sou o tempo cinza e melancólico
Que me castiga nos dias tediosos

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Não sou moral nem imoral
Sou ilha, atol, à toa, atordoado
Guiado por desejos irrealizados

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E que não ouse alguém duvidar
Do poder que tem quem não tem
Nada a perder
Alguém, por tudo querer, sem nada poder
Tudo pode por nada temer

Quem nada tem a perder
Tem tudo que precisa

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Quero ter a certeza do seu amor por mim
E que agora seja um fim,
para recomeçarmos sempre assim
Eu sendo seu, você sendo minha
Abraçados, sabendo que é junto
que se caminha
Pela vida afora, para sempre e por agora

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Você já tem o meu emprego,
Você já tem a minha mulher,
Você já roubou meu dinheiro;
E o que mais ainda você quer?

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Você usa o meu nome,
Você vive a minha vida,
Você sente a minha fome
E se sacia com a minha comida
O que eu fui, agora você é
E o que mais ainda você quer?

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Você mora na minha casa,
Você veste as minhas roupas,
Você cortou as minhas asas
E tem todas as minhas coisas
O que mais ainda você quer
Além de já ter o que quiser?

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Você detêm minha memória
Você é dono da minha história
Você sabe tudo que eu sei
Você teve êxito aonde eu errei
O que mais ainda você quer?
Quem realmente você é?

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Hoje esse frio é de todo mundo
Mas o calor que aquece os corações
é de ninguém
Todos temos força; nos pertence,
por um segundo,
Essa coragem de tentar fazer o bem

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Ninguém é dono do que pertence
a todos
Quando todos sabemos ser uns iguais
aos outros

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Não tenha medo do medo que você tem
Não tenha medo de mim nem de ninguém
Não tenha medo nem pena
Não tema o que lhe apequena

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Não acredito em nada
Que não seja uma mentira bem contada
Nunca duvido do que não acredito
E nenhuma verdade me convence
de verdade

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Estou cansado de tantas explicações
Não faz sentido o que tenho ouvido
Existem teorias, filosofias, religiões
Existem razões e delas eu duvido

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Nada vale a pena
Por isso mesmo
Tudo por ser tentado
E ainda que a alma seja pequena
Menor é o medo
De ter de volta o que nos foi roubado

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Ninguém pode deter
A desmedida força
De quem não tem nada a perder
E ainda que a história se repita
Só o que importa
É a coragem de quem ainda acredita

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Tudo é possível
Quando nada é provável
Tudo é incrível
Quando nada é provável

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O tempo e o espaço
São inverdades
Real é o sonho
O amor e a saudade

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Insistir num erro é errar de novo
O que foi feito, o que foi dito
Tudo que foi vivido
Não pode ser refeito ou esquecido

6 de janeiro de 2008

NO POSTE O POEMA

Poesia no poste
E o espinho d’água no ar
Ignorância e sede de saber
Existe uma necessidade.
A necessidade de se sentir vivo, de existir,
De se comunicar, de fazer alguma coisa, sei lá eu
Simplesmente é estranho ver e sentir tanta vontade de se expressar
E só existirem coisas para se vender, nos sendo empurradas goela abaixo nos postes, nas ruas, outdoors, cartazes, faixas e painéis
Por essas ruas onde passamos quase todos os dias de nossas vidas
Nada para se vender ou comprar; nada para querer ou desprezar
Apenas mais uma voz a gritar que não estamos sozinhos
Nós: os desprezados, os perdidos, abandonados, desesperançados
Sem dinheiro nem ideais, sem rumo nem amor
Sem nada, mas desejando as estrelas, admirando o firmamento
Tentando sobreviver em meio a esse caos dos dias de hoje

Já se perguntou qual o sentido da vida?
Já achou que sua vida não tinha rumo certo?
Já se perguntou por que estamos aqui?
É claro que já
Já se fez essas e muitas outras perguntas
Mas, já chegou a alguma conclusão, a alguma resposta lógica?
Eu não.

Vale a pena viver a vida que vivemos?
Assim, desse jeito, meio desajeitadamente; sem saber pra onde ir, o que querer; querendo o que os outros dizem que temos que querer, sonhando sonhos alheios, e impossíveis.
Vale a pena não viver a vida que realmente queríamos viver?
Fazer o que nos dá prazer e satisfação; que não nos cansa e sim nos revigora; aquilo que faz com que nos sintamos úteis e realizados.

Somos seres jogados nesse mundão sem fim, e se acabando
Somos os desacreditados; desacreditados por eles
Eles quem?
Escolha quem são eles
Eles que não nos escutam
Eles que não se importam conosco
Eles que nos subestimam
Eles que tentam nos impedir de evoluir, de sermos melhores
Eles, os preconceituosos, os racistas, os canalhas, os que detêm aquilo que não merecem
Eles que não são como nós
Mesmo que nós não saibamos ao certos quem somos nós

Não há nada de novo debaixo do sol, só o próprio sol cada vez mais quente, queimando tudo que estiver sob ele.
Não há novidades desconhecidas para serem contadas. Mas as mesmas velharias não nos interessam mais.
Não há muita coisa para ser dita
Mas uma coisa que precisa ser dita, mesmo que essa coisa já seja sabia por todos:
Não é preciso ser poeta para fazer poesia
Não é preciso ser músico para fazer música
Não é preciso é preciso ser artista pra fazer arte
Para fazer tudo basta estar vivo e ter alguma mínima disposição

Estar vivo não é apenas comer, dormir e respirar
É mais do que isso
É sonhar o sonho realizável
É não se vender
É não achar que todo mundo tem um preço
É não ser alienado
É não querer o que não tem valor
É valorizar aquilo, e aqueles, que realmente deve ser valorizado
É ter alguma coisa inexplicável dentro de si
É crer que é possível, sim é possível, é possível, é possível…
É entender que ser é mais do que ter
Ser e não ter
Ser, ser sempre.
Seja.
Tenha consciência do que é ser
Ter, não
Ser, sim
Seja feliz

Vai
Vai ser feliz
Invente um significado para a felicidade e vá atrás dela
Como diria o poeta Drummond: vai ser gauche na vida!
Vai ser diferente
Vá ser o contraponto
Contrarie as estatísticas
Dê a sua própria versão para a sua história
Faça sua voz ser ouvida e ouça as vozes que têm algo de útil para dizer

Vá e não olhe pra trás
Tente fazer parte da solução, e não do problema
Nunca é tarde para dizer que ainda é cedo
Nunca é tarde
Não queira o que eles querem que você queira
Não seja o que eles querem que você seja

Faça e consuma poesia
Faça e consuma literatura
Faça e consuma música
Faça e consuma filmes
Faça e consuma arte
Faça e consuma amor

Faça a sua parte!

5 de janeiro de 2008

PEDAÇO DE PAPEL

Dinheiro é um pedaço de papel, já cantou Arnaldo Antunes
E por esses pedaços de papel muita gente faz muit coisa
Por esses pedaços de papel muita gente se animaliza
Por esses pedaços de papel muito animais são mortos e sua pele, seus dentes e sua carne é vendida
Com muita quantidade desses pedaços de papel, muitas pessoas se acham melhores do que são, e outras se acham inferiores.
Pedaços de papel de muitas cores: verdes, azuis, cor salmão, amarelas; e usam desenhos de animais para estampá-los.
Pedaços de papel
Pedaços de gente
Por esses pedaços de papel, muita gente compra, muita gente se vende.
Por não ter esse pedaço de papel, muitas coisas úteis e necessárias são negadas para muitas pessoas
As pessoas deram aos pedaços de papel o poder de dar um preço a quase tudo, a quase todos, mesmo que quase todos neguem ter um preço.
Por ter muitos desses pedaços de papel poucas pessoas podem comer do bom e do melhor, e pela falta deles, muitas pessoas passam fome e ficam desabrigadas.
Pedaços de gente
Sonhos despedaçados
Os pedaços de papel transformaram muitas pessoas em máquinas, e deram às máquinas uma importância maior do que as próprias pessoas deveriam ter.
Os pedaços de papel transformaram muitas coisas supérfluas em artigos de primeira necessidade e pessoas necessárias em seres supérfluos.
Para arrecadar cada vez mais pedaços de papel eles nos impõem impostos, taxas, cobranças
Exigem de nós o que não podemos dar e não nos dão o que deveríamos ter por direito
Por esses pedaços de papel o que foi verbalmente acertado não vale, só vale o que está escrito e registrado oficialmente em outros papéis. Papéis de ofício
Por esses pedaços de papel só damos valor a esses pedaços de papel
Sonhos despedaçados
Desesperadas criaturas
Mundo despedaçado
Tudo em pedaços por causa desse pedaços de papel

3 de janeiro de 2008

ANO NOVO DE NOVO

Mai um ano
Mais pedidos sendo feitos
Mais coisas deixadas por fazer
No ano que passou, agora tudo é passado
E nos prometemos não fazermos mais tantas promessas
E as promessas do ano passado que fiquem por lá, sem terem sido cumpridas

Mais um ano
Mais pedidos que serão negados
Mais coisas ainda por fazer
Nesse ano que se inicia agora, tudo finge que é novo
Fingimos, mas sabemos que as promessas que fazemos, não as cumpriremos
Mas fazemos promessas mesmo assim, só por fazer
Jogar no futuro aquilo que no presente já parece passado

Mais um ano
Como tantos outros milhares
Às vezes perdemos a conta dos dias, dos meses; às vezes.
Às vezes nos perdemos
Às vezes achamos que não estamos perdidos
Achados e perdidos
Pedidos e despedidas
No ano novo é sempre assim
Como tantos outros milhares

Mais um
Um ano novo
Um novo
Um amais
Mais um novo amais
Sempre gostamos de pensar assim
Que, de um dia para o outro, outra vida nascerá
Assim gostamos de pensar
Por isso continuamos pedindo, prometendo, comemorando

Ano novo de novo
De novo aqui estaremos
Fazendo promessas
Fazendo de conta
Achando coisas
Perdendo outras
Pedindo muito
Fazendo muito pouco
No ano velho ou no ano novo

31 de dezembro de 2007

OLHA O PACOTÃO AÍ

Livros que eu recomendo a leitura:











CONTOS NEGREIROS, de Marcelino Freire
Leitura rápida, em que não se demora mais de uma hora para se devorar o livro por inteiro. Ritmo de RAP, sem virgula, sem dó. Duro e lírico; Marcelino conseguiu algo muito interessante, a fusão de linguagens. E esse feito foi reconhecido; esse foi o ganhador do prêmio Jabuti de 2006 na categoria contos. Vale a pena.











VERNON GOD LITTLE, de DBC Pierre
DBC [Dirty But Clean (sujo, porém limpo)] Pierre nasceu na Austrália mas cresceu no México e se declara mexicano; e usa muito do seu pais nessa sua fantástica história. O protagonista da história é um moleque chamado Vernon Gregory Little, e a sua linguagem é própria de um moleque americano encrencado por ser considerado cúmplice do amigo que abriu fogo contra os colegas da escola. O livro é uma porrada, escrita em primeira pessoa. No começo é difícil e de engrenar, mas do meio pro fim, você não consegue mais parar de ler.














GUERREIRA, de Alessandro Buso
Edição lançada pela editora Global, Guerreira é o terceiro livro de Alessandro Buso, e o melhor deles. Romance em ritmo de roteiro de cinema, cheiro de cortes de cenários, tempos e ações. Da queda, à ascensão, voltando para a queda, e outra ascensão. Uma roleta russa de ações e sentimentos diferentes. Muita ação, ao gosto de leitores como eu. À venda em qualquer livraria, mas se você preferir, pode comprar diretamente com o próprio autor, na sua loja Suburbano Convicto, que aliás é o título do segundo livro dele, situada no Itaim Paulista, na rua Nogueira Viotti, 56. Antes, é bom dar uma ligada para confirmar se o autor, que é muito ocupado, estará na loja.
Fachada da loja Suburbano Convicto
























MEU ANDAR SOBRE RODAS, de Tatiana Rolim
Autobiografia da psicóloga que trabalha na mesma empresa que eu. Aos dezessete anos, ela foi violentamente atropelada por um caminhão, enquanto andava de bicicleta. Aquele, para ela, e naquele momento, foi o fim de muita coisas, muitos planos e sonhos. Mas ela conta no livro como conseguiu por a cabeça no lugar, voltar a sonhar e buscar a realização desses sonhos. Tão boa quanto a história contada é a forma dela ser contada, e Tatiana é uma excelente escritora. Ela consegue algo muito difícil numa biografia, ainda mais numa autobiografia, ela faz com que a gente leia a sua biografia como se fosse um romance; parece ficção. E esse é um mérito, e só por esse mérito já é merecida a leitura de sua obra. Para adquirir o livro, recomendo acessarem o site da autora: http://geocities.yahoo.com.br/tatianarolim













OS INSONES, de Tony Bellotto
Este é o sexto livro do guitarrista dos Titãs. Sexto e melhor deles, na minha opinião. O romance mostra um traço urbano e violento da realidade brasileira. Rio de Janeiro: caos, tráfico, facções criminosas, asfalto, luxo em decadência; narrado em terceira pessoa, mas focado no ponto de vista de um ingênuo, e pretensioso, líder guerrilheiro chamado Samora, um negro criado na classe média e que tem o ideal de fazer uma revolução na américa-latina, a começar pelas favelas do morro carioca.


Por enquanto é só. Mas pra frente, mais coisas.
Difícil, eu entendo, vai ser arranjar o dinheiro para comprar esse livros. Mas, às vezes, é tudo uma questão de escolha. Escolhi os livros, discos e filmes, e isso explica porque o par de tênis mais novo que tenho já tem mais de quatro anos.
Escolhas.

Façam as suas!

28 de dezembro de 2007

DESTINOS HUMANOS IMUTÁVEIS (Conto)

No meio da noite acordei com a bexiga doendo; fui ao banheiro urinar, na volta, enquanto tomava um copo d’água, escutei um som distante, um estampido seco, de um tiro. Cinco segundos depois, outro disparo; mais cinco segundos e outros quatro disparos seguidos; fiquei atento, de orelha em pé, para o que se passava há poucos metros de minha casa. Os tiros deram uma trégua; pude ouvir uma voz fraca, tentando gritar, mas lhe faltava forças: “Estão me matando! Estão me matando!”. Em menos de dois minutos os disparos voltaram a se suceder; eu voltei a dormir; aquela, de certa forma, não era mais uma novidade pra mim. No dia seguinte, comentou-se que um homem havia sido morto com quinze tiros, ao pé do escadão que dava para rua de cima, onde as pessoas subiam todo dia, para pegar os ônibus das linhas que passavam pelo centro da cidade.
Embora eu não tivesse curiosidade de urbuzar o morto, era impossível ignorar a presença de um cadáver a menos de trezentos metros da minha casa. Na rua onde se encontrava o morto, não havia muita gente aglomerada em torno dele; talvez porque já fosse dez da manhã e o assassinato, o cadáver coberto por sacos pretos de lixo, deixando as pernas semi-abertas descobertas e as súplicas de clemência do infeliz durante seu assassinato na madrugada já haviam se tornado notícia relativamente velha e não haveria porquê requentá-la mais que devido. A molecada jogava bola e ignorava a presença de um ser humano morto logo ali; eles estavam acostumados com cenas como aquela, muitas vezes até faziam disso uma diversão; me lembro de um dia vê-los brincando, correndo pra cima e pra baixo, puxando uma linha, cuja uma das pontas estava amarrada pela calda uma ratazana morta do tamanho de um gato. Em dado momento um dos meninos deu um chute e a bola acabou acertando a cabeça do defunto; o som da bola batendo na cabeça coberta pelo saco plástico tirou alguns risos de muitos que olhavam de longe; apenas os mais velhos, que ainda não haviam se acostumado ainda com as barbaridades que viam diariamente na favela – esses homens e mulheres de mais de quarenta anos de idade cresceram numa época em que a violência tinha cara, nome e endereço; os bandidos esperavam a madrugada, vestiam-se de preto, cobriam o rosto com um lenço de seda e cometiam seus assaltos valendo-se, muitas vezes, apenas de um canivete; na maioria das vezes o revólver era só para assustar; e ainda que fossem ladrões e assassinos, havia respeito e uma espécie de código de ética entre eles mesmos e de seu modo de agir com suas vítimas; eles morriam de medo da polícia, “as autoridades”, que eram chamados de mocinhos nos filmes, confiáveis e cumpridores da lei e da ordem, caso ela fosse violada ou ferida.
Hoje em dia é pé no peito, chute no saco e tapa na cara de todos os lados, a qualquer hora do dia ou da noite. A bandidagem esculacha, a polícia esculacha, os patrões esculacham, a televisão esculacha, o governo esculacha. Estão todos se acostumando a serem tratados como objetos de pouca valia, como lixo comercial de terceiro mundo. A criançada de hoje cresce sabendo que o mundo visto em comercial de banco, de telefonia móvel, de cerveja, de pasta de dente, de refrigerante, de carro, de desodorante, e de planos de previdência privada só é possível e só lhes pertencerá por meio do dinheiro, e para ter dinheiro no Brasil só roubando, como os políticos fazem a torto e a direito.
Ao meio-dia, finalmente, o rabecão do IML dignou-se a vir buscar o corpo que já começava a feder e a se decompor.
Voltei pra casa e almocei. Aquela cena não tirava mais o meu apetite.

23 de dezembro de 2007

MAIS UM DIA

Pelas ruas da grande metrópole a miséria levanta sua minissaia e exibe suas pernas, que outrora reluziam no furor da juventude, mas que agora, não escondem mais a decadência e a pouca curiosidade que lhe restou. Há que se andar com o nariz tampado, tomando cuidado para não tropeçar nos mendigos que se multiplicam pelas ruas sujas e enegrecidas do centro de toda e qualquer cidade metropolitana do Brasil. Os sentimentos se confundem; revolta, raiva, vergonha, medo, pena, tristeza, desilusão e desgosto. O sol do meio-dia vai queimando o asfalto e azedando o cheiro de urina e suor; nas portas das lojas de roupas e calçados de quinta categoria em promoção as almas se aglomeram, acotovelam-se, misturando suas fragrâncias dos desodorantes de essência de alfazema. A tarde cai e o crepúsculo avermelhado do pôr-de-sol se confunde com as cores dos luminosos de néon das boates e cinemas pornôs que têm seu movimento aumentado consideravelmente. Vem a noite, o frio e o calor; o cheiro de bebida e o som ligado em alto volume tocando forró, pagode e música sertaneja. O frege da putaria parece ecoar o som de um monstro de sexo, decadência e fetiches. A madrugada avança, o furor vai diminuindo, o silêncio e o sereno se impõem sobre todas as orgias e frustrações ocorridas horas antes; o perigo espreita. Os inimigos gostam de matar e roubar no limiar rotundo entre o fim da noite e o orvalho da alvorada. Os ônibus voltam a circular pelas, o dia mostra sua cara amassada e no céu o sol insurge novamente, convidando o mundo a apreciar mais um dia pleno, inútil e intenso, como todos os outros dias do ano.

21 de outubro de 2007

INSTANTE

Nesse exato instante
muita coisa está acontecendo.
Gente nascendo, gente morrendo.
Tudo nesse instante exato
ou nem tanto.

Nesse mesmo segundo
alguém está sendo torturado,
alguém está tendo um orgasmo.
Alguém está pedindo outro alguém
em casamento
enquanto alguém sofre
por não ter nenhum contentamento.

O sol nasce aqui
ao mesmo tempo que se põe
em outros lugares
para outros olhares;

A noite escura,
o sangue frio;
nessa fração de segundo
o mundo de alguém desmorona
e de outras ruínas
ressurgem sonhos
que ninguém mais sonha;

Últimos suspiros
Choro de recém-nascidos
Pedidos de socorro
Gemidos de prazer
Sons dissonantes
Concomitantes

Nesse exato instante
tudo que é importante
é ignorado
pois esses instantes
(inconstantes)
parecem menores
do que realmente são

6 de outubro de 2007

NO SUPERMERCADO (Conto)

No supermercado eu carregava a cestinha de compras me sentindo um perfeito idiota; ainda estava mal, mas era preciso comprar algo pra comer. Não podia mais ficar gastando dinheiro em lanches nas padarias e restaurantes self-service que enfiavam a faca nos clientes; se eu continuasse assim, não sobraria nada do pouco dinheiro que me restou. E não há nada pior do que homem solteiro fazendo compra em supermercado. Eu nunca sei direito o que comprar, aliás, sei, mas na hora acabo comprando um monte de besteiras. Fiz outra lista dessas bobagens que sempre compro:

1. Refrigerante.
2. Sardinha enlatada.
3. Pão de fôrma.
4. Macarrão instantâneo.
5. Goiabada.

Enquanto andava pelos corredores do supermercado e olhava os produtos nas prateleiras, eu observava o comportamento de algumas pessoas que também estavam ali fazendo compras – não há lugar melhor para se observar as pessoas do que o ambiente de um supermercado –. Casais mais velhos, com um comportamento ranzinza do marido com a esposa e vice-versa, nessas horas eu dava graças a deus por não ser casado, e ainda me perguntava se era pra isso que as pessoas se casavam; me lembrei dos meus pais, da forma como meu pai tratava minha mãe, com desprezo e superioridade, como se minha mãe fosse uma inútil qualquer. Eu viajava nas minhas divagações; andava despreocupado pelos estreitos corredores do supermercado, e isso levantava algumas suspeitas. Muitas vezes, eu passava por trás dos seguranças e, sem que eles percebessem, os via dando minha descrição pelo rádio; como eu estava vestido e o meu comportamento esquisito, e quando eles se viravam e me viam encarando-os, saíam andando sem muito constrangimento, talvez achassem normal suspeitar de um sujeito estranho, e com um comportamento mais estranho ainda, como eu.
Fui embora sem comprar nada. Entrei na primeira lanchonete que encontrei e pedi um sanduíche e um refrigerante.

30 de setembro de 2007

UM GRANDE TEATRO

“A vida é um grande teatro, o problema é que os papéis estão mal distribuídos” já disse Oscar Wilde.
É, eu concordo, quase nenhum de nós se satisfaz com a farsa que é obrigado a encenar. Eu mesmo, quantas vezes me olho no espelho, me encaro por dentro e não entendo por que as coisas são como são. Quem disse que tudo porque passamos, o quanto sofremos, as injustiças que presenciamos são necessárias, inevitáveis. O sofrimento parece o destino comum para a maioria de nós; por que?
Quantas vezes o desonesto, o trapaceiro, o vil, o descarado consegue prevalecer, ter vantagem e levar a melhor, enquanto aqueles que procuram caminhar pelo caminho mais longo, porém honesto, que não querem enganar nem passar ninguém para trás é prejudicado e fracassa. É duro ver essas coisas acontecendo e se sentir, ou incapaz, ou impedido de fazer alguma coisa.
A revolta e o desgosto são tão grandes, às vezes, que o estômago até dói e se contorce. Daí vem a pergunta: as coisas vão mudar algum dia?
A gente escuta de alguns que sim, as coisas vão mudar. Que a gente não pode desistir nem esmorecer; mas o que a gente acaba constatando é que a vida, na maioria das vezes, acaba se resumindo numa tediosa, e dolorosa, cadeia de repetições desastrosas e negativas.
Mas, e daí?, vai se entregar?
Vai desistir? Vai pedir arrego?
Vai dar a vitória ao inimigo?
Quer ouvir um conselho?: só de birra, seja uma boa pessoa; seja honesto, seja cordial e limpo. Não use drogas, não se venda por migalhas e não compre as ilusões que lhe querem vender.
Mesmo se não der em nada, ao menos você pode se gabar de não ter sido medíocre como a maioria das pessoas.

8 de setembro de 2007

ALESSANDRO BUSO, O ESCRITOR SUBURBANO CONVICTO


São Paulo, mais precisamente o extremo leste, Itaim Paulista. Lá fui comprar os livros do escritor Alessandro Buso, e fui recebido pelo próprio escritor, na sua loja Suburbano Convicto.
Ele me recebeu muito bem, é um cara muito gente fina, simpático e educado. Me mostrou várias outras obras de vários outros escritores. Acabei comprando, além dos três livros do Alessandro Buso, O Trem, Contestando a Versão Oficial; Suburbano Convicto e Guerreira, que achei o melhor dos três, acabei comprando dois livros do Ademiro Alves (O Sacolinha), a revista em quadrinhos Os Inimigos Não Mandam Flores, de Ferréz e Alexandre de Maio, o DVD 100% Favela e o CD do grupo Pentágono. Acabou que eu fui realmente comprar todos esses produtos culturais aqui mesmo em Osasco.


Valeu pelo contato com o grande escritor Alessandro Buso e sua obra legítima e de qualidade.


Eu recomendo!!

5 de agosto de 2007

SOMOS SONHOS

Depois de tanto tempo
O tempo parece não importar mais
Tivemos alguns momentos
De um tempo que não voltará atrás

Somos a soma do que vivemos
Olhamos pra trás e pensamos
sobre tudo que já fizemos;
sobre o que perdemos e ganhamos
E ainda nos restam os mesmos sonhos
Ainda somos sonhos irrealizados
Ainda somos sonhos
Somos sonhos ainda

Depois de tanto tempo
Ainda não sabemos quem somos
E o futuro ainda é o firmamento
Tão distante de onde estamos

E ainda assim vivemos
De sonhos e do que comemos
Ainda assim queremos
Sonhar o sonho que não vivemos

Meus sonhos são seus também
São nossos os sonhos de mais ninguém

Ainda nos restam os mesmos sonhos
Ainda somos sonhos possíveis
Ainda somos sonhos
Somos sonhos ainda

22 de julho de 2007

Estou todo aqui, nestas palavras que nada dizem, porque não tenho nada a dizer. Sou o nada em sua plenitude, e isso é muito, até demais para alguém tão limitado e confuso a respeito de si e do que representa para os outros e para si próprio. Mas se sou todo nada e se nada tenho a dizer, por que digo, repito, escrevo e rescrevo essas mesmas palavras? Por que ainda sigo, insisto, persigo e persisto nesse desconhecido caminho cheio de espinhos que provavelmente não me levará a lugar algum, a não ser, talvez, e fatalmente, para onde haja maiores dúvidas, medos e frustrações?
Talvez a resposta para esta e outras perguntas esteja justamente no fim da via oposta dessa estrada que me leva até mim; e lá dentro, no centro, no epicentro das dores e sofrimentos causados por amores que não vingaram e me arruinaram aos poucos, e de pouco em pouco, enfim, por completo deixou-me como agora estou, ostentando esse nada que por hora sou.

8 de julho de 2007

ELA E OUTRA MULHERES DE RUBEM FONSECA


Demorei, devido a falta de verba, mas enfim li o mais recente livro de Rubem Fonseca, Ela e outras mulheres. São dezessete contos desse que eu considero, entres os autores que eu já li, o melhor contista da literatura brasileira. Rubem Fonseca deixa mais uma vez sua marca, seu estilo e toda sua criatividade. É o mestre no seu auge, auge esse que já dura décadas. Virulência e humor, raiva e deboche. Está tudo nesse livro que é um bom apêndice de toda a vasta obra do escritor carioca e é complemente avesso a entrevistas, aparições em todo e qualquer veículo de comunicação e até mesmo a ter sua imagem reproduzida em foto. Por isso regozijai-vos com uma raríssima foto mais recente tirada desse grande mestre da literatura brasileira.

30 de junho de 2007

BONÍSSIMA AURORA (Conto)

Aurora, boníssima Aurora. Em Aurora vivi os melhores anos da minha vida, até porque os anos que vivi foram os únicos que tive e também, em Aurora, foi onde nasci, me criei e onde ainda vivo. Lembro-me melhor a segunda parte, já que a primeira, o nascer, não é lembrança viva em minha memória; minhas recordações começam a fluir em minha mente a partir dos meus seis anos; antes disso nada tenho de recordação. Talvez seja uma injustiça não ter nenhuma lembrança de quando era recém-nascido, já que considero estes, os primeiros, os melhores anos da minha vida e acho que todos deveriam pensar assim. É tudo muito simples, apenas dormir, chorar e mamar. O sono é fácil e tranqüilo; o choro é quase sempre por causa da fome, que depois de saciada, voltamos a dormir, sem complicações e questionamentos existenciais.
Minto ao dizer que me criei; o que acharia papai e mamãe disso? À eles devo esse crédito. Minha infância e juventude não merecem atenção especial nem menções que devam ser levadas em consideração. Foi tudo muito normal, graças à deus. A fase de minha vida que passo a admirar mais é a atual; concordo que ter sessenta e cinco anos, para muitos, não deve ser muito excitante, mas são os anos que tenho e deles muito me orgulho. De que vale ter a força e não saber usá-la, ter a coragem e ser imprudente, acho que de nada vale. Prefiro a paciência cultivada que tenho e que me ajuda a refletir sobre tudo que fiz e tudo que deixei de fazer.
Não sou nostálgico. O saudosismo beira e acompanha a acomodação e a tristeza; quando elogio Aurora, não me valho do passado, mas sim do presente, do que tenho e de quem sou. Aurora merece meu cortejo, ainda é bela e vistosa. Cidade pequena; antes parecia ser maior e melhor, mas seus encantos jamais o tempo ou as pessoas poderão destruí-los. Sinto-me dono de aurora e acho que posso me sentir um pouco assim, como aquelas pessoas que invadem um terreno e lá ficam por dezenas de anos, mesmo não sendo donos legítimos, o sentimento de posse e soberania e compreensível. Assim me sinto: um dono sem poder sobre sua propriedade; logo eu que sou tão possessivo. Me atenho a ficar distante e sozinho, como sempre fui, como nunca quis ser e como acho que vou terminar.
Minha vida foi tão teimosa e repetitiva que chego a me envergonhar. Não tenho aventuras das quais possa me vangloriar nem romances proibidos, duelos mortais e descontroles emocionais. Nada. Nada de inconstante. Amigos, quase nenhum; amei muitas mulheres, muitas, mas meu destino foi o mesmo de Camões. O solitário barda português é minha companhia literária predileta e consagrada; sim, Camões morreu sozinho, e percebo que assim será também o meu fim. Não gosto desta constatação, mas pra que mudar o que se faz perfeito? Quando alguém nasce para sofrer e tenta mudar essa sina, acaba por fazer outras pessoas sofrerem junto com ela. Porém, não defendo a desistência dos sonhos e fantasias; sei que, às vezes, a dor é tanta que pensamos em desistir, mas quando desistimos, aí é que a dor aumenta desconsoladamente.
A solidão que sinto só não é maior, porque tenho a companhia mágica dos meus livros, dos meus discos, da minha mobília antiga e dos animais de estimação, que nada me estimam. Mas pra que reclamar? Pra aumentar o ressentimento? Não, não mesmo. Prefiro sofrer pouco do que muito. O que vivi foi o suficiente; tive amigos que me abandonaram, mas foram sinceros; tive amores que não me amaram, mas o importante não é ser correspondido amorosamente, e sim amar; o importante não é ter no que acreditar, mas sim acreditar. Acreditar, não nas coisas, mas em si mesmo.
Agora apenas observo os outros ao meu redor, cometendo os mesmos erros que eu cometi; confesso que isso me consola. É estranho, mas pelo menos assim percebo que não fui eu quem, sozinho, errou, e sim a vida. Há certas coisas que são inevitáveis, por mais que se tente evitá-las.
Minhas reminiscências parecem tomar forma de despedida melancólica, mas não foi essa a minha intenção. Talvez seja um reflexo do inverno, da chuva lá fora, das más notícias que as rádios, mais quantitativamente, irradiam hoje em dia; do tempo que foi desperdiçado e que não volta mais.
O que me resta é o melhor de tudo: a compreensão dos meus sentimentos, a calma para aproveitar melhor os poucos momentos felizes, minhas receitas de bolo caseiro, meus programas de televisão (que sempre estão reprisando), meus cobertores que já têm a forma exata do meu corpo, minha lareira, meus dedos, minhas pernas, meus vinte e dois dentes que sobraram, etc. tenho o melhor da vida, que é a própria vida, e apenas ela.
Engraçado, tudo isso me veio à tona, só porque olhei pela janela e vi um buraco onde antes havia um hospital, o mesmo hospital onde eu nasci e que agora vai dar lugar a um shoping center. É o progresso, o progresso que eu não posso evitar. Não posso evitar que coisas, quase unânimes, aconteçam, mesmo que elas sejam inumanas e destrutivas. Ao menos sei que fiz a minha parte, tendo sido ela útil ou não, eu sei que, ainda bem, as coisas nas quais acredito não me traíram, isso me conforta e me salva ileso da maldade da Aurora de hoje em dia.

16 de junho de 2007

CARPE DIEM

O termo Carpe Diem surgiu no período de decadência do império romano, num clima de “salve-se quem puder” e “cada um por si e deus contra todos”. Com o tempo, esse mesmo termo foi deturpado e passou a significar: “a vida é bela, a vida é curta, tudo é lindo, deus é por nós, então Carpe Diem, ‘Aproveite o Dia’” eram o que diziam todas as músicas e no que acreditavam os que tatuavam essa frase no próprio corpo. Hoje esse pensamento se aproxima mais do sentido original de quando foi criado; hoje todo mundo diz Carpe Diem e anda por aí nas noitadas se entupindo de comprimidos de êxtase, bebidas energéticas, estimulante sexual, maconha, cocaína, crack, tirando racha, fazendo roleta russa, arrumando briga na rua para aplicar os golpes de jiu-jítsu que aprendeu na academia, se matando por dois ou três reais, por um copo de pinga ou um par de tênis importado. “Carpe Diem Mundão”, Aproveitem o Dia, que é só por hoje, pois o amanhã já era.

8 de junho de 2007

AGORA

Agora que já sei dizer não
Agora que já sei o que não quero
Agora que aprendi a gostar da escuridão
Agora que tão pouca coisa espero
Agora que sei com plena exatidão
Quando não devo ser sincero

Agora posso, enfim, ir me encontrar
Comigo mesmo; olhar no espelho
E mergulhar dentro de mim

7 de junho de 2007

TOP 5

Sempre eu que passava pelos portões de entrada da fábrica onde eu trabalhava, costumava lembrar de algumas músicas – peguei essa estranha mania de musicar todas as minhas lembranças, emoções, impressões e idéias; tudo tinha que ter um fundo musical. Acho que acabei adquirindo esse hábito do cinema, onde quase toda cena tem uma música tema –. Fiz até um top 5 das músicas que me remetiam ao meu trabalho:

Em 5º lugar: Running on the Spot, de Paul Weller:

I was hoping we’d make real progress
But it seems we have lost the power
Any tiny step of advancement
Is like a raindrop falling into the ocean
We’re running on the spot always have always will?
We’re just the next generation of the emotionally crippled

Em 4º lugar: AA UU, dos Titãs:

Estou ficando louco de tanto pensar
Estou ficando rouco de tanto gritar
..............................................................................
Eu como, eu durmo, eu durmo, eu como
Eu como, eu durmo, eu durmo, eu como
Está na hora de acordar
Está na hora de deitar
Está há hora de almoçar
Está na hora de jantar

Em 3º lugar: Fábrica, da Legião Urbana:

Nosso dia vai chegar,
Teremos nossa vez.
Não é pedir demais:
Quero justiça,
Quero trabalhar em paz.
Não muito o que lhe peço –
Eu quero trabalho honesto
Em vez de escravidão.

Em 2º lugar: Capitão de Indústria, de Marcos Valle e Paulo Sergio Valle:

Eu, às vezes, fico a pensar
Em outra vida ou lugar
Estou cansado demais
............................................
Eu não tenho tempo de ter
O tempo livre de ser
De nada ter que fazer
............................................
eu acordo p’rá trabalhar
eu durmo p’rá trabalhar
eu corro p’rá trabalhar

E em 1º lugar: Comportamento Geral, de Gonzaguinha:

Você deve notar que não tem mais tutu
E dizer que não está preocupado
Você deve lutar pela xepa da feira
E dizer que está recompensado
Você deve estampar sempre um ar de alegria
E dizer: “Tudo tem melhorado”
..............................................................................
Você deve aprender a baixar a cabeça
E dizer sempre: “Muito Obrigado”
São palavras que ainda te deixam dizer
Por ser homem bem disciplinado
Deve, pois, só fazer, pelo bem da nação,
Tudo aquilo que for ordenado
Pra ganhar um fuscão no juízo final
E diploma de bem comportado
Você merece, você merece...

12 de maio de 2007

Não acredito em nada
Que não seja uma mentira bem contada
Nunca duvido do que não acredito
E nenhuma verdade me convence de verdade

Eu só sei duvidar
Eu só sei duvidar
Eu só sei duvidar

Estou cansado de tantas explicações
Não faz sentido o que tenho ouvido
Existem teorias, filosofias, religiões
Existem razões e delas eu duvido

Eu duvido de toda essa beleza
Eu duvido e duvido com certeza

4 de maio de 2007

"Todas as verdades são velhos
clichês, as mentiras é que
conseguem às vezes ser originais"

Trecho do livro Diário de Um Fescenino, de Rubem Fonseca



  • Deputados decidem não votar leis na segunda-feira, devido o fato de ninguém ir trabalhar nas segundas;
  • Querem transformar o dia 11 de maio em feriado por causa da beatificação do Frei Galvão;
  • A lei de redução da maioridade penal para dezesseis anos foi aprovada no senado federal;
  • O cara no comercial de tv dizendo que todo brasileiro entende de cerveja