30 de março de 2007

O Rato no Quintal

Oh, meu bem
Eles não respeitam mais ninguém
Para te humilhar, cospem no teu rosto
E não podes encará-los nos olhos

Meu bem
Eles são cruéis mesmo
Às gargalhadas eles atiram à queima-roupa
A consciência deles é feita de éter
Eterna perseguição nos é imposta

Oh, meu bem
Eles são muitos
Estão armados, não têm medo, não têm futuro
Eles jamais terão compaixão

Meu bem, meu bem
Para eles o respeito é uma vidraça a ser quebrada
Estão nos encurralando
Estão minando nossa resistência
Eles estão vencendo

Oh, meu bem
Meu bem, me diga
Quem são eles? Onde estão?
O que realmente querem?
O que podemos fazer?

Mas meu bem
Eles são realmente eles?
Será que nós não somos um pouco eles?
Será que nós não os estamos alimentando?
Eu só sei de uma coisa meu bem
Eu não estou mais agüentando

27 de março de 2007

Dialética

Quem tem algo mais a dizer
Levante a mão, solte o pigarro
E brade em alto e bom som,
Defenda sua verdade, esconda suas mentiras
Ignore a sanidade e manipule os fatos
Cada um tem a sua própria razão
E quase sempre ela é maior que o bom senso
Mesmo sendo castigado pelo ressentimento
Pago só pelo faço e não pelo que penso

Eis então o bom cidadão,
Eis em ação o bom cidadão:
Exigindo seus direitos, negando seus deveres
Fazendo o que não quer, querendo não querer
Desejando o que não pode, sem ter o que fazer
Fazendo o que não deve, devendo sem saber
Sabendo que não sabe e fingindo esquecer,
Esquecendo de viver, pensando em prazer
Vendo o próprio fim sem nada poder fazer

E terminado seu discurso
Se acomode em seu lugar
Faça silêncio e ouça tudo
Esperando a hora de acabar
Volte pra casa e sinta-se bem
Afinal, como diz o ditado:
“Quem tudo quer, nada tem”
Viva em paz com sua dor
Que eu disfarço meu rancor também

24 de março de 2007

Metrópole

Cada animal com seu instinto
e cada verme com seu partido;
Das desgraças, das quais consinto,
a ignorância é a que mais tem me doído

Dos retângulos verticais
que paralelos e estáticos eternizam
a grandeza esmeralda dos capitais,
vejo o cinza vulgar dos que se imitam;

Cada zumbi vestindo sua pedante ilusão,
respirando todo o fedor sanitário,
comendo a mais podre reserva de grãos
e arrotando um forçado sorriso amarelado;

A cada animal cabe um destino
e nenhum verme, do asco, se isenta.
Com o perigo a desgraça tira um fino
e escapa da vida fingindo pena

mas alimentando a miséria alheia
como se o imundo mundo fosse justo;
Sua falsa fachada não se permeia,
só a dor se penetra a todo custo

derme adentro
até o centro
até a razão sucumbir;
E, quem sabe assim, a vida se acostume
à inconstância do que há por vir
pois a vida não tem sumo, só tem gume.

20 de março de 2007

Auto-Imagem

Rascunhou a própria imagem numa folha de papel
E achou-se mais parecido consigo mesmo ali
Do que na imagem impregnada no espelho
Ou na velha fotografia que registrara um tempo não vivido

Ele agora era aquele rascunho
Com traços imperfeitos, imprecisos, rabiscados
Essa parecia ser sua real fisionomia
Esse desenho parecia mais com seu cenho
Enfim, havia encontrado seu auto-retrato

Se fez a esmo, com pressa de logo vê-lo terminado
Por suas próprias mãos, com seu próprio conceito se si mesmo
O papel branco e as linhas pretas as únicas cores
Que todo bom desenhista sabe não serem realmente cores
São apenas presença e ausência de luz

Ele se sabe incolor, pois sabe que nunca amou
Ele se sabe disforme, se sabe sem nome
Ele se sabe dor

Sua auto-imagem não deveria ser retocada
Nada de correção ou arte-final
Ele era daquele mesmo feitio ali registrado
Era luz e sombra, era o nada cheio de cercas
Ele era aquilo e não poderia melhorá-lo
Tampouco seria capaz de póstuma reprodução
Que lhe seria mais fiel e verdadeira

E imediatamente terminado o esboço –
pois mesmo sendo-o inteiro, aquilo nada mais era
do que um mísero esboço –
Ele rasgou a folha e desfolhou-se
Soube como era e regozijou em silêncio
Tinha íntima certeza que depois de saber como realmente era
Poderia, a partir dali, ser qualquer outra coisa que quisesse

15 de março de 2007

AO MESTRE CONY OS PARABÉNS


Em tempo, espero. 14 de março, dia da poesia, aniversário de Carlos Heitor Cony, meu mestre. Principal responsável por meu amor à literatura e por minha obsessão por também ser escritor. Ao mestre desejo boa saúde, felicidades, e se possível, mais literatura.

VIVA CONY!!!

14 de março de 2007

êta nóis!

O etanol é a bola da vez. Ouve-se dizer que o Brasil será o maior produr de biomassa, de cana-de-açucar, de ácool combustível. Até o Bush veio, tumultuar ainda mais o cotidiano da cidade caos.
Bem, pelo pouco que sei, o Brasil é o maior produtor de soja, de açucar, de suco de laranja, de gado (tem mais boi do que gente nesse pais). Além disso é auto-suficiente na produção de petróleo.
Então cabe a pergunta: onde estão os benefícios de tanta potêncialidade econômica, de tanta produção de matéria prima?
Uma das maiores economias do mundo tem uma das maiores populações miseráveis do mundo. Pra onde vai tanto dinheiro que poderia ajudar a solucionar, ou ao menos amenizar, boa parte dos problemas sociais, educacionais, de saúde pública e de incentivo ao esporte e à cultura?
É por isso que esse assunto de etanol me soa tão distante e pouco crível de se acreditar quando ouço "Esse é um importante passo que o Brasil está dando". Dando pra onde? para a geração de riquezas que ficarão nas mãos dos mesmos 5% da população que detem 95% da riqueza desse país continente? Ou nas mãos dos corruptos do congresso, ou fora dele?
Só quando a gente ver a cor do dinheiro sendo usado para o bem estar dos que realmente merecem assistência, apoio e respeito do estado, é que esse tipo de iniciativa econômica será realmente compreendida e festejada.
Por enquanto, êta nois!

11 de março de 2007

MAIS UM DIA

Pelas ruas da grande metrópole a miséria levanta sua minissaia e exibe suas pernas, que outrora reluziam no furor da juventude, mas que agora, não escondem mais a decadência e a pouca curiosidade que lhe restou. Há que se andar com o nariz tampado, tomando cuidado para não tropeçar nos mendigos que se multiplicam pelas ruas sujas e enegrecidas do centro de toda e qualquer cidade metropolitana do Brasil. Os sentimentos se confundem; revolta, raiva, vergonha, medo, pena, tristeza, desilusão e desgosto. O sol do meio-dia vai queimando o asfalto e azedando o cheiro de urina e suor; nas portas das lojas de roupas e calçados de quinta categoria em promoção as almas se aglomeram, acotovelam-se, misturando suas fragrâncias dos desodorantes de essência de alfazema. A tarde cai e o crepúsculo avermelhado do pôr-de-sol se confunde com as cores dos luminosos de néon das boates e cinemas pornôs que têm seu movimento aumentado consideravelmente. Vem a noite, o frio e o calor; o cheiro de bebida e o som ligado em alto volume tocando forró, pagode e música sertaneja. O frege da putaria parece ecoar o som de um monstro de sexo, decadência e fetiches. A madrugada avança, o furor vai diminuindo, o silêncio e o sereno se impõem sobre todas as orgias e frustrações ocorridas horas antes; o perigo espreita. Os inimigos gostam de matar e roubar no limiar rotundo entre o fim da noite e o orvalho da alvorada. Os ônibus voltam a circular pelas, o dia mostra sua cara amassada e no céu o sol insurge novamente, convidando o mundo a apreciar mais um dia pleno, inútil e intenso, como todos os outros dias do ano.

7 de março de 2007

Oceano

Existe um oceano e no meio dele há alguém que olha para os lados e nada vê além de água, deserto, solidão, frio e ausência de algo ou alguém que se pareça consigo. Não nutre mais esperanças de que apareça alguém ou algo para lhe salvar. Sabe que a morte é só uma questão de tempo e entrega. Seu corpo é tomado pela paralisante hipotermia e é puxado com muita força para o fundo, para o abismo abissal do qual não poderá retornar. Mas ele não afunda, permanece boiando na superfície, respirando, existindo, resistindo, não se entregando. Agarrando com todas as forças a única coisa que o mantém vivo e ainda vendo além do que se mostra aos seus olhos. Esse oceano é o mundo, esse alguém sou eu e essa coisa a qual me agarro e que me mantém de olhos abertos e de coração protegido se chama LITERATURA.

3 de março de 2007

AMÉM

Dobre os joelhos e diga “Aleluia”
Se seus sonhos fracassaram e a pouca fé
É só mais um motivo para você sofrer.
Se a dor de perder o amor da sua mulher
e ver a filha recém nascida morrer o corroer,
Dobre os joelhos e diga “Aleluia”

Feche os olhos e diga “Amém”
Se há monstros o perseguindo,
Se há vozes soprando em seu ouvido,
Se o corpo não está mais resistindo
E se tudo está completamente perdido,
Feche os olhos e diga “Amém”

É tudo uma questão de ponto de vista!

28 de fevereiro de 2007

AS INSTITUIÇÕES BRAZILEIRAS


Observando o comportamento, e o movimento, das instituições desse país, é possível se constatar que:

1. O governo, não importa se de direita, centro ou esquerda, sempre se mantém à direita do povo e à esquerda da imprensa.

2. A imprensa, mais especificamente o jornalismo, sempre se mantém à esquerda do governo e à direita do povo.

3. O povo é mantido sempre à esquerda do governo e da imprensa, e por causa disso acaba se mantendo à direita de si mesmo.

4. E algumas pessoa do povo são marginalizadas a tal ponto de não conseguirem nem mesmo serem aceitas pela esquerda, tornam-se renegados e tomam o caminho do crime para tentar usufruir daquilo que só quem está na extrema direita usufrui.

E aquém a todas essas variações geopolíticas, sociais, históricas e econômicas da composição institucional brasileira estão as multinacionais, mantendo sempre os mesmos níveis de lucro, exploração e manipulação do país e da situação em que ele se encontra. São as únicas instituições realmente sólidas, que planejam, projetam, fazem estimativas e executam sua ações mercadológicas, marqueteiras, caras e ilusórias. Vendem de tudo, sobretudo idéias volúveis, fugazes e medíocres. Vendem o que você deve ser, ter e querer. E, por mais absurdo que possa parecer, a maioria das pessoas acaba comprando essas idéias e os bens materiais que elas representam.
Diante desse quadro, sempre parece haver a necessidade de escolha. Chega a ser uma imposição. É preciso escolher um lado, uma idéia, um partido, um conceito, uma cor, uma causa e sua provável conseqüência, uma religião, um rótulo, uma tribo, uma turma, uma gangue, uma verdade (mentira), um projeto de vida.
Será que não se pode escolher não escolher?
Será que a democracia se resume a essas obrigações?
Será que a liberdade ocidental só pode ser desfrutada sob essas grades?
Eu não quero escolher nada, nem ninguém. Não quero ser obrigado, por nenhum motivo, a fazer parte de nada, de nenhum movimento ou estagnação. Acho que a espontaneidade é que deve dirigir as nossas ações; devemos fazer o que nos sentimos obrigados a fazer, não o que os outros nos querem obrigar, por quaisquer motivos.

24 de fevereiro de 2007

BALA PERDIDA

A bala, que se perdera do epicentro
da briga entre João e Pedro Bento
por causa de Maria, moça bonita,
foi se encontrar bem lá dentro
das entranhas de um homem
cujo biografia era desconhecida.
A bala perdida encontrou um abdome,
João e Pedro Bento perderam Maria,
Maria acabou sozinha e sem ninguém;
E o homem baleado perdeu o trem e a vida

20 de fevereiro de 2007

A VITÓRIA DE VICTOR


Foi finalmente aprovada na França a extinção da pena de morte. E ao mesmo tempo foi prestada uma homenagem a Victor Hugo, um dos maiores defensores da vida e da extinção da pena de morte. O autor de Os Miseráveis, enfim venceu; demorou, mas sua verdade prevaleceu. E o seu esforço foi grande, a ponto dele escrever um livro só para defender sua idéia; o livro chama-se O Último Dia de Um Condenado, onde o escritor narra as últimas seis semanas de vida de um condenado à morte, desde a sua saída do tribunal onde foi condenado até o cadafalso. Na época (estamos falando de 1829) a obra causou polêmica, mas hoje, 178 anos depois, ele provou estar certo. Mesmo sendo muitas vezes acusado de ingênuo por sua vontade de ‘reparar’ as injustiças sociais do seu tempo. Indiscutível era sua talentosa capacidade de traduzir as fragilidades, vicissitudes e riquezas da condição humana.
Transcrevo abaixo um trecho do prefácio da edição de 1832:

…………………………………………………………………………………….
[Os que julgam e condenam dizem que a pena de morte é necessária. Primeiro porque é importante subtrair da comunidade social um membro que já a lesou e poderia lesá-la novamente. Se se tratasse apenas disso, a prisão perpétua bastaria. Para que a morte? Objetarão que se pode escapar de uma prisão. Façam melhor a sentinela. Se não acreditam na solidez das grades de ferros, como ousam ter zoológicos?
Nada de carrasco onde basta o carcereiro.
Mas, retorquirão, é preciso que a sociedade se vingue, que a sociedade puna. Nem uma coisa nem outra. Se vingar é próprio do indivíduo, punir é de Deus.
A sociedade está entre os dois, o castigo está acima dela, e a vingança, abaixo. Nada de tão grande ou de tão pequeno lhe convém. Ela não deve “punir para se vingar”; ela deve corrigir para melhorar. Transformem dessa maneira a fórmula dos criminalistas, nós a compreenderemos e a ela aderiremos.
Resta a terceira e última razão, a teoria do exemplo. É preciso dar o exemplo! É preciso assustar por meio do espetáculo do fim reservado aos criminosos, os que seriam tentados a imitá-los.
……………………………………………………………………………………..
Das duas uma:
Ou o homem que os senhores castigam não tem família, parentes, vínculo nesse mundo. E nesse caso não recebeu nem educação, nem instrução, nem cuidados para seu espírito ou para seu coração; e então com que direitos os senhores matam esse órfão miserável? Os senhores o punem pelo fator de ter em sua infância pelo solo sem estirpe e sem tutor? Os senhores lhe imputam por antecipação o isolamento em que o deixaram! De sua infelicidade os senhores fazem um crime! Ninguém o ensinou a saber o que estava fazendo. Esse homem ignora. A culpa está no seu destino, não nele. Os senhores castigam um inocente.
Ou esse homem tem uma família; e então acham que o golpe com o qual o degolam fere apenas a ele?, seu pai, sua mãe, seus filhos não sangrarão também? Não. Matando-o, os senhores decapitam toda a família. E aqui mais uma vez castigam inocentes.
Canhestra e cega penalidade que, não importando de que lado se vira, castiga um inocente!]


Seria bom se nós fizéssemos uma análise de consciência nacional. Se um país intelectualmente desenvolvido como a França levou mais de duzentos anos para extinguir a pena de morte, não significa que nós, ao cogitarmos institucionalizá-la, não estaríamos cometendo um terrível ato de involução que nos tomaria séculos de tempo e vidas preciosas para nosso progresso como nação?

Fica a pergunta
E a homenagem à vitória de Victor

16 de fevereiro de 2007

ESQUECIDOS

Os jornais noticiam fatos de um outro mundo
Os livros estão escritos em outro idioma
A luz não ilumina mais esse abismo profundo
A flâmula que se ostenta é a da vergonha

Tudo parece menos feio visto de longe
Toda canção soa distante aos ouvidos
Não é mais sabido onde a paz se esconde
Já são todos apenas rostos desconhecidos

Esquecidos, abandonados e indesejados
Um continente de miseráveis e heróis
Um contingente de guerreiros subjugados
Uma nação dividida, uma ferida que dói

Mas eis que se aproxima o tempo da mudança
Quando todos conhecerão, ainda que pela dor,
O poder, ou a conseqüência, da destemperança
De quem nunca reagiu, de quem sempre se calou

E quando esse novo tempo chegar, talvez será
Tarde demais para muitos dos que hoje exploram,
Julgam e condenam, porém, a sua hora chegará
E quando, de joelhos, pedirem clemência, não a terão

Não se trata apenas de vingança, não é esse o caso
A questão é outra, bem mais poderosa e legítima.
Pelo que se tem lutado, o que tanto tem sido rogado
Não é a esmola, a migalha, o resto, mas sim a justiça.

12 de fevereiro de 2007

O que resta

Entre partidas e chegadas, boas vindas e despedidas, encontros e separações, parecemos, depois de passar por tudo isso, mais resto do que sobra. Parecemos não somar mas subtrair, ao menos é a sensação que sinto. Pelo que passamos, deixamos algo de nós e não levamos nada, talvez um vazio formado por lembranças, sentimentos e experiências que, na maioria das vezes, nos endurece, deixam empedernidos os corações.
Talvez seja apenas uma sensação, uma mera impressão.
Talvez.

7 de fevereiro de 2007

Carnaval, carnaval...

Em Pernambuco, de sexta até segunda, as micaretas já começaram a circular pelo estado, e já morreram 48 pessoas, sendo que uma das mortes foi a de uma senhora idosa que foi morta dentro de sua própria casa, espancada até a morte.
É, já começou o carnaval.

2 de fevereiro de 2007

Eu Sou 300


"Eu Sou 300", novo álbum solo de Sérgio Britto, vocalista e tecladista dos Titãs, é muito bom, como eu esperava. Sou muito fã dos Titãs e de todos os trabalhos solos realizados por cada um deles. Nesse álbum, Sérgio continua marcando presença na música pop, com forte traço rock 'n roll e muitas pitadas de brasilidade, como ele disse que queria o disco. Como sempre uma das melhores coisas são as letras das músicas, letras essas que me me fizeram tornar fã incondicional dos Titãs e de cada um dos integrantes da banda. Belíssimas canções e mensagens. algumas músicas são poesia pura; para quem acha exagero, deixo a letra da música "Nós" a décima faixa do álbum, feita em parceria com Carlos Renó, e que teve como produtor o sensacional guitarrista Emerson Villani que também acompanha os Titãs nos shows e que também será o guitarrista da banda que Sérgio montou para as turnês do disco novo, o "Eu Sou 300".

NÓS

Nos miramos, nos admiramos
Nos sentimos, nos consentimos
Nos tentamos, nos contentamos
Nos captamos, nos capturamos

Nos rendemos, nos desprendemos
Nos colamos, nos descolamos
Nos levamos, nos revelamos
Nos abrimos, nos descobrimos

Nos deitamos, nos deleitamos
Nos gostamos, nos degustamos
Nos provamos, nos aprovamos
Nos comemos, nos comovemos

Nos amamos, nos amarramos
Nos lançamos, nos enlaçamos
Nos cedemos, nos excedemos
Nos prendemos, nos surpreendemos

30 de janeiro de 2007

O Primeiro Milhão

Millôr Fernandes, que sabe das coisas, já deu a receita, agora depende de você achar se vale a pena ou não:

“Os milionários gostam de fazer mistério sobre sua fortuna, acrescentando ao gozo material do que possuem a superioridade intelectual sobre os que os freqüentam. Mas é muito fácil ficar milionário. Basta para isso dormir e acordar só pensando em dinheiro. Não abrir mão de qualquer possibilidade de ganhar dinheiro, mesmo que o contrário lhe dê imenso prazer. Ser frio e racional na hora de dar ou emprestar a seu melhor amigo, parente e até irmão, cobrando os juros e as taxas exatas, embora seu coração lhe diga que desta vez você devia ser generoso. Não ter qualquer escrúpulo, em qualquer ocasião. Pensar sempre no melhor partido que você pode tirar de uma situação desastrosa em que se encontram seus companheiros de negócio. Não temer o castigo de Deus, a opinião pública, a perseguição legal. Pensar que um lucro grande é melhor do que um pequeno mas que um lucro pequeno, repetido muitas vezes, pode vir a ser melhor do que um lucro grande. Se você, em suma, usar da subserviência exata no momento em que esta for necessária, a audácia e a grosseria precisa nos momentos em que a canalhice e a violência forem os melhores caminhos, se não tiver nenhum problema de consciência, nenhuma dúvida moral, nenhuma ambição de cultura, nenhuma preocupação quanto aos outros o acharem indecente, pérfido ou criminoso, o caminho da fortuna está facilmente aberto para você, como para qualquer um.”
Millôr Fernandes,
O PRIMEIRO MILHÃO. OBRAS COMPLETAS. 1970

E aí, o que você me diz?

20 de janeiro de 2007

A Vida Ensina

Três e meia da tarde. Um sol de rachar. De um lado a entrada o shopping center, que à sua frente tinha o estacionamento, do outro lado um semáforo na avenida margeada por um córrego fétido que alimenta de detritos o rio Tietê mais adiante, onde eu aguardava o sinal abrir para os pedestres e eu poder atravessar. Numa das travessas, enquanto os carros paravam diante do sinal vermelho, dois moleques, que não deveriam ter mais de dez ou doze anos, sujos, mal vestidos e mal encarados, chegavam junto dos vidros dos carros e pediam alguns trocados. Alguns motoristas davam algumas moedas, outros negavam e alguns até fechavam o vidro para não serem incomodados pelos meninos mestiços. Na segunda vez que o sinal fechou, apenas um dos garotos pediu dinheiro, o outro ficou encostado num poste de luz olhando as águas escuras e putrefatas do córrego.
O sinal finalmente abriu para mim e eu segui em direção ao shopping center enquanto pensava nos moleques. Por que pediam dinheiro? Para comprar cola de sapateiro e ficar a noite toda chapados para enganar a fome e o frio da madrugada? Comprar comida? Dar o dinheiro para algum adulto filho da puta que os explorava sem que ninguém do poder público tomasse alguma providência? Comprariam alguma arma; sei lá, fiquei pensando, sem saber o que pensar direito.
Entrei no estacionamento do shopping center, subi até o térreo, o sol rachando minhas cabeça, fervendo minhas idéias. O estacionamento estava vazio, numa quinta-feira à tarde era normal. No meio do estacionamento uma grande armação de fios e plástico, era uma enorme cama elástica onde se poderia ficar pulando por três minutos pagando-se seis reais. O som bem alto tocando música junto da entrada do cercado da cama elástica, tentando chamar os fregueses invisíveis. Segui até a entrada do shopping, nada me interessava ali, apenas a livraria, o cinema e o que eu queria no momento: o ar condicionado. O shopping era apenas uma passagem, meu destino era outro. Continuei ainda pensado naqueles dois moleques que pediam dinheiro no sinal.
Passados vinte minutos, saí do shopping para ir até meu destino, quando passei novamente pelo estacionamento fui surpreendido com o que vi. Na cama elástica, pulando e dando cambalhotas estavam os dois moleques que estavam pedindo dinheiro do sinal onde parei minutos antes. Davam uma, duas, às vezes, três piruetas seguidas, pareciam ginastas profissionais, com um sorriso largo, feliz e despreocupado no rosto. “Então era pra isso o dinheiro” disse para mim mesmo. Foi quando parei um pouco pra pensar, mesmo embaixo do sol de rachar era preciso parar e pensar. Senti vergonha de ficar pensando certas coisas, caindo nas mesmas armadilhas preconceituosas que nos condicionam a pensar sempre as mesmas coisas das mesmas pessoas, situações ou sentimentos. Por que eu, quando vi aqueles dois moleques na esquina pedindo dinheiro, não os vi apenas como duas crianças? Por que vi dois seres tão estranhos do que realmente eram?
Passei pela cama elástica, os dois meninos continuavam pulando, aproveitando os três minutos de diversão aos quais tinham direito, e saí sentindo um amargo na alma, daqueles que a gente sente quando se vê diante da nossa própria mesquinhez, mas sabe que ao menos aprendeu mais uma lição que vida insistentemente ensina aos que não fecham os olhos e ouvidos para sua voz sutil, mas visceral e indelével.

14 de janeiro de 2007

Dia Perdido (conto)

Achei estranho quando olhei pro lado e vi o cara quase se encostando em mim; ambos, ele e eu, já estávamos na livraria há alguns minutos, mas não trocamos palavra, nem sequer nos conhecíamos. Só entendi sua postura quando ele bateu no abdome e o som produzido foi seco, só aí entendi que ele estava roubando livros. Saí de perto dele para que ninguém pensasse que eu era seu cúmplice; fui embora sem ter comprado nada, os livros que eu queria não tinham no estoque, só por encomenda. Que desperdício encher prateleiras com livros de Paulo Coelho, Zíbia Gaspareto e Roberto Chinyashiki, enquanto os bons autores de verdade não têm espaço para suas obras. Fui ao banheiro e enquanto urinava reparei no piso que de tão liso e limpo que dava até pra ver o reflexo de quem estava no privativo ao lado; o cara fazia movimentos repetitivos, não demorou muito para entender que ele estava se masturbando. Saí fora logo do banheiro e do shopping. Ao passar por um bar quase levei uma cusparada de um bêbado desavisado. Começou a chover e eu sem guarda-chuva; me molhei todo, fiquei parecendo um cachorro molhado, fedendo a papelão sujo. Passei pelos mendigos, pelos postes fedendo a urina, pelas pessoas mal educadas que andavam se esbarrando, despreocupadas, atrás de presentes para dar no natal; fui meio sem rumo, querendo algo mais de um dia de folga perdido, não aproveitado. Acabei me convencendo de que nada mais adiantaria continuar ali; baixei a cabeça e tomei o caminho do ponto de ônibus. Não demorou muito e eu já estava dentro do busão que me levaria de volta para o inferno.

7 de janeiro de 2007

2007

Neste ano, mais um ano iniciou-se
E como no ano anterior
Em mim nada mudou
Ainda estou sob a ameaça da foice

De um dia para o outro
Muda-se muito pouco
Mais do que preciso o riso seria
Do que esse ar sério de alegria

Mas, por falta de algo que desconheço
Esperarei a mudança
Porém, sem esperança
De ter algo, que em verdade, não mereço